terça-feira, 27 de julho de 2010

Vulcão

Segunda-feira, como se faz toda segunda-feira, treino, treino noturno, Noturno, de preto.

Tiramos uma fotografia daquelas que viram porta-retrato. O elenco todo.

Terça-feira. Acabo de voltar de uma partida de futebol. Foi o jogo de despedida antes da viagem do time para a Inglaterra, sexta, para a disputa da Copa do Mundo anti-racismo.

Tiramos uma fotografia daquelas que viram porta-retrato. O time todo.

Há coisas em comum entre uma e outra atividades. Vocês sabem a carga emocional que deposito nelas. Mas há uma coisinha física. O joelho. Meu joelho que andava mal. Lembro da fisionomia da fisioterapeuta me examinando. Não era boa.

Segunda-feira, após fazer a sequencia de cenas, não senti dor. Semana passada eu cai no chão na "lavoura", pois o joelho não suportou. Foi tão ruim que nem sei dizer. E nada escrevi. E a ninguém desabafei. Fui tratar.

Voltando ao fim da sequencia de cenas. Minha alegria com a não dor me fez chutar uma garrafa d´agua contra a parede, e ela abriu e espalhou água. Eu ri. Depois abracei o primeiro que entrou na minha frente, o Vitinho, o levantei, derrubei no chão, rolei, sacudi.

Hoje no futebol até gol eu fiz.

O joelho parece pronto para mais uma batalha. O coração aparentemente também.

Na última quarta tive um princípio de taquicardia. Um ultrassom mostrou que não tenho nada além de stress. Eu acredito em fisioterapeutas. Nem tanto em ultrassons. Tenho motivos.

Estou mesmo tão tenso quanto se é possível estar. E esta tensão faz mal ao coração, ao joelho e ao lado frio. O lado frio de quem precisa cravar Lavoura, acertar no canto, não errar no tempo musical.

Cometi o que considero a maior das falhas. Não lidei com o imprevisto e parei a cena do taxímetro ao perder a fala. Desistir da cena no meio é grave. Não me frustrou mais do que notar o motivo. Eu estava pegando fogo por dentro. Tenso sem razão.

A Copa na Inglaterra vai chegando, o Noturno também. O local onde moro e com quem moro está mudando, e o emprego também. O públicável me acelera e excita, e o impublicável também. E eu ando vivendo uma época de saboroso pavor, por mais que às vezes ele saia do controle do cérebro, do coração, do joelho e da conta bancária, esta sim infartante.

De um modo que nem precisava estar tirando fotos para a posteridade.

Meus últimos dias tem sido tão marcantes quanto uma tatuagem, realizando sonhos de carreira, de vida, sendo presenteado pela bondade, fazendo pazes. E tendo vocês notúrnicos ao lado na mais artística coisaque já fiz.

Valemos a pena, moçada.

"Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão."
(Oswaldo Montenegro)

quarta-feira, 14 de julho de 2010

NÃO CONSIGO ANDAR!!!

Aaaaaarrrgghhh Socooooooorro!!!

Sério, sou adepta a somente treinar a Lavoura nos últimos 10 minutos antes do ensaio acabar.

Credo, eu pareço uma velha coroca me arrastando pelos corredores. Mais ou menos com o "Broke the Bonds" do But I Still - juro que tem momentos que eu tenho que levantar minha perna com a mão!!

Pensamento-Adendo #1: Acho que agora eu vou cantar "You broke the BONES". Vou me lembrar dessa semana por um bom tempo.

Quem compartilha a mesma agrura e quiser se solidarizar à causa, ficarei mais feliz. É sempre bom saber que outros, assim como eu, também não são triatletas iron-power man. Eita exercicinho fiadapú!

Pensamento-Adendo #2: Existe hérnia de esqueleto? Acho que estou com ela.

Beijocas a todos!

Maps

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Um mês depois

-Você quer dizer que só transou comigo até hoje?

Vocês conhecem essa frase. Mas falando-a subindo a escadaria do metrô, com gente andando na contramão, e ouvindo, é diferente. Eu e Roberta chegávamos juntos. Acho que fui convincente e para algum dos surpresos figurantes eu e Roberta temos sei lá o que.

Mais tarde no Ipê passava o texto com Pâmela. Um jamaicano veio pedir cigarro, colírio, sanduíche, puxar papo. Ignoramos, continuamos passando o texto. Ele insistiu.

-Olha pra mim Leandro, caralho!

Um soco na mesa. Era o "chique né". O jamaicano saiu andando. "xi, sujou". Passar texto na hora que dá é legal.

Ah! O Ipê. Uma reação em cadeia cancelou a cervejada. cancelou? Que nada. Eu, Roberta, Pamela e Gérson Montenegro estivemos lá. Ok, por 5 minutos. Eu e Pâmela por 15. Aí fomos embora a pé.

No primeiro módulo, outro endereço eu tinha e outro caminho fazia. Pegava carona com o Bruno. Sentado por 20 minutos, agradáveis conjecturas e polêmicas no carro. Agora volto a pé do teatro, uma horinha de caminhada.

Nessa noite, fui assaltado. Pegaram meu celular. A Pâmela avançou no cara e tomou meu celular de volta. E tocou os caras, xingando. Fica o registro. Eu não discordo mais dessa moça.

Passei um mês sem escrever né? E nenhum puto alimentou o blog. Onde estavam vocês nesse mês? Fica meu protesto. Andei trabalhando com uma espécie de sonho profissional, e ao mesmo tempo trocando de moradia e tendo experiências bacanas como viver sozinho sem fogão e esperar para ver quantos dias o porteiro demora para me dizer que pareço o Lobão.

Portanto, desde que o segundo módulo começou, eu volto e fico sozinho, não escrevo e não comento, fico aqui batendo nas paredes. Não foi bom não. Também porque não tive tempo, ou melhor, não tive organização de rotina para pensar nos detalhes das coisas ou mesmo estudar textos e danças.

Andei sem organização pra porra nenhuma. Hoje, tudo clareou. O tal do trabalho terminou, era hora e vez de eu saborear o treco, ao invés de jogar goela abaixo com pressa.

Fiquei irritado. Costumo fazer isso sempre, me armo, me condiciono e me cobro, e não alcanço o impossível que projetei.

Não achei meus movimentos limpos. Nem minha convicção e segurança calibradas. Falhei demais nas coreografias. A voz me deixou na mão.

Não digeri, não me satisfiz, fiquei com fome, quis mais, quis revanche, deu raiva, me cerrou os punhos. E isso significa que estou dentro do Noturno como queria. Se tem uma coisa que a inconformidade nos mostra, é que estamos interessados ou comprometidos.

Eu não gostaria de viver eternamente rindo, ou beijando, ou descansando, ou comendo picanha. Hoje eu teria ficado uma eternidade, se pudesse, tentando acertar com o grupo a Lavoura. Depois de várias semanas, sinto que a terça-feira vai voltar a ser um dia de 100 horas, cruel e chato, arrastado por ser o mais distante da outra segunda.

Tá ficando bom e nós vamos ganhar.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Sonhos

Não é só porque eu ando um pouco sem palavras, preferindo outras molduras, observar mais do que dizer. Eu vou trabalhar com a Copa do Mundo, um outro sonho a ser realizado por mim, e essa semana, bem como o próximo mês, quase não me deu tempo para escrever sobre as coisas de minha vida.

Mas eu estou dormindo pouco. De segunda para terça, 3 horas. São duas da madrugada de quarta, tenho que estar de pé às sete, e estarei sem maiores problemas, e não deverei dormir nos próximos minutos.

Ansiedade. E eu nem sou tão ansioso assim. Estou. Ansioso por fazer as pazes com minha paciência, colocar começo, meio e fim numa mesma história. Enfim.

Poucas e rápidas palavras. Fiz o jogo proposto pela direção, de ignorar as músicas, as cenas, os papéis da peça durante o primeiro módulo. Pouco pensei em qual dança, qual momento, qual gesto me agradava mais, não coloquei CD para ouvir, nada. Tudo para que o começo dos ensaios, tal qual ocorreu nessa segunda, tivesse seu impacto.

E teve. Tempo livre nessa terça significou ler, falar o texto, ouvir as músicas, assistir aos vídeos. Valeu a pena deixar 4 meses fermentando. A sensação de delícia não me fará dormir bem, e me deixará acordado com os pés nas nuvens.

E eu nem sei dizer quantos momentos altos, emocionantes, que fazem parte de minha memória desde sei lá quando, desde minha tia falando na sala "EEEta Foi Jesus quem me mordeu" quando eu tinha 8 ou 9 anos, desde tudo, me vieram á tona outra vez e mais forte.

Tentei projetar cenas, e acho que terei que intensificar a imagem de Candé e Deto pedindo "lado frio". É preciso esse domínio. Sinto-me absolutamente concentrado. Mas a concentração às vezes também é quente.

O trabalho atrás das cortinas, a desmistificação da dança de abertura, a presença do autor desse sonho todo, a dor, a dor no joelho, o cuidado, cuidado com a voz, a moçada que entrou, a lacuna de quem não voltou, haja assunto. Haja sensação. Ainda é só o começo.


+ + +
saudade de umas amigas nossas. Fica uma homenagem-apelo

terça-feira, 1 de junho de 2010

Day-Night after.

Eu demorei pra dormir. Muito. Só consegui na última hora de céu escuro. Faz sentido, consegui não ver o dia clarear. Sonhei que estava dormindo num gramadão e no saco de dormir ao lado estava a Andressa. Não lembro dos outros fragmentos de sonho, mas certamente tinha menestrel em tudo que era lado.

Acordei num estado de leveza inexplicável. Maravilhado em lembrar dos meus parceiros, dos meus diretores, de mim mesmo. Acho que tive um dos dias mais serenos de toda a minha vida. De verdade.

Entrei em junho, mês que vou realizar um outro sonho que é trabalhar com a Copa do Mundo, do melhor jeito possível. Ao longo das horas troquei ideia com pessoas, e lí alguns dos nossos, como o Chris, esse leão chamado Chris.

Larguei o noticiário de guerra do jornal e da internet. De Israel, fico com a parte boa, a parte da paz, da inteligência, da Sophia, da Paty. Não queria nada pesado nesse dia. Larguei a organização das contas, como costumo fazer todo dia 1°. Hoje isso pouco importava.

Relaxado, pedaços novos da noite vieram à tona, à mente. Quem me abraçou quando eu chorei, quem eu abracei quando chorou. As cenas que só ouvi, as palavras que ouvi de alguém da plateia. Recebemos por e-mail os textos do Noturno. Renovei minha tarde. E continuo sem conseguir falar em específico de qualquer das emoções que senti.

É "só" um vitrine? É "só" a troca de módulos? Que seja qualquer coisa... anoiteceu de novo duas horas atrás. Que dia saboroso. Que noite íntima.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

A calma e a paz que eu mereço

de Leandro Iamin

Era uma vez uma criança que chorava. Adultos comovidos e entretidos perguntavam à ela o porque das lágrimas, já que não tinha nada na sala além do avô tocando violão. "É que é bonito", disse a criança. E você chora com o que é bonito? "É que não cabe nos olhos".

Humilde preâmbulo para citar o humilde blog. Não cabe. Algumas emoções não cabem num blog. Transbordam pela caixa de entrada, invadem outras telas, se derramam pelo teclado.

Peguei o metrô em estado catatônico. O metrô quebrou na estação onde descia no meu primeiro emprego. Com o meu primeiro salário, na época, eu comprei o agasalho verde e duradouro que estava vestindo. Umas estações mais tarde, o filho da minha primeira patroa entrou no trem.

Claro que não achei um simples acaso. Meu primeiro emprego formou parte de meu caráter. Caráter que sempre está em formação. Seria divertido que entre o teatro e minha casa aparecessem outros elementos desses. Não apareceram.

Eu poderia dizer aqui em detalhes o que senti com cada um que fez cada cena. Mas não caberia. Caberiam nas letras, mas as letras são para o sentimento como os olhos são para a lágrima. Transborda, sucumbe, se rende.

Atrás dos números eu vi pessoas. Nos seus jeitos, formando um pouco mais dos seus caráteres. Cada um com seu ritual e sua reação à ansiedade. Ninguém foge de ser o que é nessas horas intensas da vida.

Pra não falar que não convidei ninguém, eu convidei minha mãe. Mas eu sabia que ela não teria como ir. O vitrine tinha para mim um aspecto particular de reencontro com o público de fato. Nada muito diferente de nenhum de nós, seja encontro ou reencontro. Só que eu acho que preferia um público sem identidade, sem nomes, sem endereço conhecido. Igualzinho um membro do Noturno deve ser no palco. Pelo menos dessa vez.

Uma parte da engrenagem que me move é uma mágoa, uma derrota. Passei 2009 indo à academia em busca de condicionamento físico. Em 2010, minha busca é pelo condicionamento artístico. Fazem 5 anos que procuro condicionamento espiritual. Algo que junte, solde dois pedaços de mim e transforme numa história só. Noturno me parece ser isso para mim.

E para cada um de nós, ele tem sua representatividade, sua explicação, que não há de caber em palavras.

Eu estava lá, naquele meu primeiro emprego, trabalhando, quando Ana Paula morreu. Eu usei o nome dela esse tempo todo para justificar a minha própria escolha por não fazer teatro. Cinco anos. Onde eu estarei daqui cinco anos. Quais serão meus próximos medos.

Este está superado. Não sem lágrimas e hesitações. Mas sem nenhum minuto de ausência. E Ana Paula, a quem o palco era tão necessário, a quem a amizade muito me custava, ocupava uma daquelas cadeiras vazias. Ou lotadas. Cada um de nós tínhamos convidados só nossos.

E eu preciso agradecer ao que me forma o caráter, pedaço por pedaço. De cabo a rabo das experiências, de A a Z. Enumerar as vezes que me arrepiei e/ou perdi o chão na noite que acabou agora seria individualizar uma sensação conjunta de paz, e perder o "junto filosofal" que se formou aqui dentro. E simplesmente não caberia no blog.

Baixei a guarda para outras chicotadas psicológicas que vieram em minha direção. O primeiro exercício com canção do Noturno; O Menestrel de Shakespeare; Metade, de Oswaldo Montenegro; entregar o palco para um parceiro, dar a deixa; alguns gestos e olhares "familiares" perdidos pela noite. Tudo isso atingiu meus olhos. Não coube neles. Como não cabe no peito de ninguém tanta coisa e mais coisa que nos forma, desde lá de trás.

Noturno é uma destas coisas. Lembro de uma criança arrepiada. E não entendia muito bem o porque. Só sabia que era bonito. De um lado a mãe, do outro a tia, as duas emocionadas. Buscou razão para estar alí. E assistiu Noturno pela primeira vez na vida.

Não sei se o Noturno é um dos culpados por eu crescer insone. Se minha parte boêmia tem influência dele. Se suas músicas da peça que tanto tocaram em casa sedimentaram meu gosto musical. Se o meu lado sentimental tem contribuição notúrnica. Não sei. Seja como for, eu tive o Noturno quando criança, e o tenho agora adulto. E me considero um cara de muita, muita sorte.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

o coletivo

de Leandro Iamin

Algumas coisas que antes não faziam parte de nossa rotina nos treinos, agora começam a fazer. Logo aqui embaixo a Maps definiu bem toda a alquimia que é quando somamos nosso conhecimento adquirido ao nosso sentimento aflorado.

Agoras os exercícios saem. A memória nem percebeu o quanto já decorou e o quanto consegue se virar no caso de ter esquecido de algo ou de precisar criar sem mostrar que criou. Condicionamento artístico talvez seja a palavra. Coração atento, olhos ligados num corpo de 40 braços e 40 pernas. Treino é treino, estudo é estudo, e eu adoro isso. Sempre adorei a escola, nunca fui CDF com livros e provas, mas amava ouvir e interagir com os professores formais e informais que passaram por mim.

Porque sempre vi resultado. Sempre que estudei algo, transformei alguns aspectos de mim. Sempre que treinei, consegui melhorias. Em tudo. O resultado aparece e é proporcional, não tem jeito. Não é injusto como futebol ou ilógico como amor. O que você treina e estuda, você colhe da forma prevista.

Falta um treino de atividades "comuns", mais um vitrine, e aí enfim os papeis e as minúcias da peça em si nos ocuparão. Seis horinhas de primeiro módulo. Acho que o que tínhamos para estudar e treinar, para aprender com a proposta do módulo, já foi feito. E eu olho para frente, e fico admirado. Por petensioso que pareça, acho que consigo enxergar a evolução individual nossa. Mas jogo ela fora, dou um foda-se e puxo a descarga, claro. Pois o ensinamento conceitual de todo o módulo estava na evolução coletiva. E esta evolução é muito, mas muito mais visível.

De minha parte individual, superei sem apertos a rasgura que o reencontro com o palco poderia causar na minha saudade de uma amiga. Coletivamente, nem tenho o que falar. Coletivamente eu nada falo, pois coletivamente eu tenho 40 bocas.

Só que vou me permitir usar umas lembranças de coisas particulares, e dize-las aqui. Com licença.

Mari. O seu choro fez o coletivo chorar também. Alguns de nós choraram com as lágrimas e tudo. Alguns você viu, alguns não. Mas o seu choro nos lembrou de algo que já sabiamos que não se poderia evitar: perderemos peças. Alguns de nós haverá de sair, como já saiu. Só que tem o seguinte: nós estamos na metade da história. O fato de você não participar da segunda metade não te tira da primeira, não te zera dentro da equipe, não te torna parte excluída. Aquilo que vai ser apresentado em outubro tem, irremediavelmente, o seu toque e o seu sentimento misturado com o nosso.

Lembro ainda que muitas coisas, na verdade a maioria das coisas que sonhamos em fazer na vida, acabam antes mesmo de começar. Interromper algo na metade não deixa de ser uma vitória.

Tadeu é um moço de marca muito forte. Eu chamaria Tadeu de mijo de gato. Onde o gato mija, não há quem consiga tirar o cheiro. É assim quando Tadeu participa de uma cena. Ele possui um presença marcante. Só que isso parece estar causando uma perturbação ao nosso menestrel das tranças longas.

Ele escreveu aqui semana passada, mas preferiu ocultar o texto. Fez essa opção, e eu estou desfazendo-a de alguma forma. Tadeu tem uma legítima preocupação com a leitura externa de sua faceta bem-humorada o tornar estereotipado. É aquela coisa de todos rirem quando um comediante faz uma cena dramática ou faz um comentário serio.

Tadeu não é comediante, e nem esse problema é dele. Acho que isso pode virar uma imperfeição do coletivo, isso é, subestimar algum olhar para ele, impedir indiretamente que outras facetas dele desenvolvam-se. O exemplo é do Tadeu, mas pode acontecer com todos nós.

No fim da nossa multi-apresentação da última segunda, corremos para a plateia depois da última cena. Após cumprir todo o extenso roteiro, eu estava cego. Eu ceguei mesmo, lembro que berrava e lembro que estava em transe. E lembro que no fundo da plateia encontrei o Tadeu, e aparentava entusiasmo semelhante. Lembro que dei um abraço nele, de fração de segundo. E fiquei feliz de encontra-lo num momento desprovido de qualquer graça, e munido de potência emocional, coisa que sobra no grupo, e nele também.

Acho que já escrevi demais para o meu tamanho. Vale dizer que Chris Spong, entre alguns outros bonitos textos citados nos exercícios de luz com o Deto, falou carregado de emoção um trecho de O Menestrel, texto de Shakespeare, que eu considero uma das coisas mais bonitas que já li. E veja, vocês, no youtube achei o texto citado, e vejam vocês, está aqui embaixo.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Atenção aos Detalhes

Ontem foi uma noite e tanto.

Ontem foi o início do fim do início para então iniciarmos a parte que termina no fim - tô te essshhhhxxxxplicando bem?

Ao sentar no bar ali da galeria, com os mesmos de sempre, notamos um fato que definitivamente muda todo o contexto da aula que, para alguns, foi normal, como todas as outras.

Quando que, em algum momento nos dois primeiros meses de curso, imaginaríamos que podíamos ir tão longe? A atenção aos detalhes que eu peço é: o Candé nos passou um roteiro que há 2 meses atrás era simplestente impossível de cumprir.

Não porque não teríamos capacidade de executar. Acho que essa capacidade já existe desde o dia que nascemos.

Mas o tal "espírito da coletividade", o junto, a ajuda, a cooperação, o respeito... isso não era parte do nosso roteiro até então. Isso todos nós construímos, ao longo desses quatro meses, uma cumplicidade como grupo sem perceber as mudanças sutis que transformaram o que era pra ser um exercício "difícil" em um exercício emocionante.

Nos conhecemos mais do imaginamos. Sabemos de talentos que as pessoas de fora talvez nunca vão conhecer. Ao entrar no Dias Gomes às segundas-feiras podemos incorporar alter-egos, sonhos e válvulas de escape que não são factíveis na vida real. Ali, mostramos um lado que às vezes nem a família, nem os amigos, nem os namorados, maridos, ficantes, rolos e adendos sabem. E que prazer que é poder contar com pessoas que, apesar de não saberem detalhes da minha vida, sabem alguns detalhes da minha alma.

Já existe um clima de término do jardim-de-infância e início da nossa vida adulta, parafraseando o Detão. E que venha essa vida adulta! Que venham as responsabilidades, os problemas, as superações. Temos que encarar os puxões de orelha como se fosse Outubro. Temos que perceber que se não nos dedicarmos 120% com seriedade, precisão e atenção aos desafios, são 40 pessoas que vamos envolver. Agora é fato: vamos começar o Noturno.

Ontem vi duas grandes figuras tristes por não poderem mais participar na segunda fase. No término do exercício, chorei junto. Quando a gente vira árvore, dói quando perdemos uma folha.

Atenção aos detalhes - ontem provamos que estamos preparados. O Noturno está latente, ali, chamando, só falta abrir a porta.

Criaturas da noite: não tenhamos mais medo de vê-las. Chegou a hora de mostrar por que chegamos até aqui.

Por causa da nossa união.

Grande beijo,

Maps

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Crescendo

Verinha me emocionou.

Eu queria começar o texto já falando disso, ou do porque disso.

Tive uma única experiência com a dopagem premeditada, com a violência deliberada através de drogas quaisquer. Que familiares não descubram este blog.

Estava hospedado num famoso hotel, sozinho, à trabalho. E não saí daquele gigantesco quarto igual entrei. Saí derrotado e não tenho orgulho disso. Acabara de ser cruel comigo mesmo, encerrado uma fase importante da vida, e desci às ruas do centro da cidade, desesperado, querendo qualquer idiotice que me violentasse, me tirasse grana do bolso e causasse preocupação de alguém.

A decadência é mais decadente quando é pobre e causa dó.

Achei uma idiotice qualquer e usei. E me senti frágil, chorão, de atos efêmeros e bobos como os de uma criança. E só me confundi, misturava certeza e arrependimento, critica e elogio, amor e ódio.

A verinha me emocionou com aquela espera por um namorado que não viria. Dopada mas contida, com raiva mas exaltando o desleal parceiro. Contradizendo os gestos e as palavras a todo segundo. Conflito. O conflito que te põe contra ti mesmo, se agredindo, se absolvendo, se justificando pra ninguém.

Quem nunca foi decadente uma vez na vida, simplesmente não nasceu.

E aí eu busco alguma explicação metafórica para absorver. "Exercício deprê", disse Deto Salaminho. Não sei, talvez não. Depressivo é o vazio. Deprê mesmo é negligenciar a própria derrota, pois ela educa e você tem que aceita-la para aprender.

Quando me perguntam sobre que cena quero fazer no Noturno, digo que prefiro sempre algo mais dramático do que engraçado. Um pouco porque flerto com esse raciocínio, de que sou mais humano quando estou mais perto do abismo.

O exercício não foi deprê. Nos adicionou elementos a mais, apenas isso. Um elemento que talvez nos faltasse, de interpretar, mesmo que de maneira descontraída, um sentimento de perturbação, indesejável, que nos fez buscar algum signo desagradável que conhecemos.

A Verinha me emocionou porque representou a maturidade que todos nós devemos ter - e eu acho que temos ou estamos a caminho de ter - para cuidar de cenas densas, seja foto, seja dança, seja o que foi.

Definitivamente, quanto mais humano e engasgado é um personagem, mais ele me conquista.

* * *

Noturno vai chegando perto da metade. Perto da segunda metade. Perto de ser marcado, decorado, acertado, definido, alinhado. Como uma vida humana, em que infância e juventude, primeira metade, tudo pode, mas a maturidade é certinha e precavida.

Atos efêmeros e bobos como os de uma criança a gente faz quando está crescendo. Noturno, com o coração, a gente só faz quando já cresceu.

Eu já não sou mais aquele que entrou.

Porque não são só as más experiências que nos transformam.

Com vocês, quero algumas más experiências encenadas.

E todas as boas experiências possíveis, estas não encenadas.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Segunda-feira

Só sei que ao fim de cada segunda-feira eu não vejo a hora de que chegue logo a próxima segunda-feira.
E que, por mim, todos os dias podiam ser segundas-feiras e todas as horas entre 20h e 23h dessas segundas-feiras poderiam durar 24 horas. E que em todas elas poderia ser noite, sem sombra no chão. Com sombra no pano, no palco.
E sei também que o melhor de tudo é que mais 40 pessoas sentem igual a mim. Junto. Comigo.
E que é lá que todas elas deixam pra traz qualquer outra preocupação, chateação, dúvida, culpa, falta, solidão, descontentamento, medo.
É inexplicável, imensurável, infinito, imenso, intenso. É paixão, humor, união, sonho, emoção. É calor, energia, suor, crença, força.
É bom. Demais.

Postado por Lívia Nolla

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Noturno x Noturno. Vencedor: Noturno

de Leandro Iamin

Basicamente, minha vida atual se resume ao Noturno e ao meu time de várzea. Não me venham falar do trabalho. No trabalho eu apenas trabalho. O resto do tempo eu uso descaradamente para me reservar a maior ociosidade possível.

Convite de amigos são aceitos, saídas moderadas, consultas médicas e uns planinhos postos no papel, contas, filmes, organizar, leituras, o que for. Nada obrigado, tudo só se eu quiser.

De compromisso real, firmado, juramentado, daquele que sei hoje onde estarei daqui 3 meses, é só isso: Noturno e meu time de várzea.

Não acho que sejam poucas atividades. Me bastam como nunca nem 5 atividades simultâneas bastavam. Amo o time que jogo mais que o Palmeiras. No teatro encontro minha melhor versão possível. Saio sempre feliz das duas atividades, a ponto de não me culpar caso negligencie o resto de minhas horas acordado, ou mesmo dormindo, de folga, ou mesmo trabalhando.

Por vezes, uma atividade entra no espaço da outra. Sábado eu deveria ter ido com a moçada ver a peça UP, mas o futebol me impediu. Da mesma forma, hoje no teatro deixei minha coxa inchada numa pancada como raramente recebo num campo.

Sábado foi um dia chato para mim. Aspectos de uma versão derrotada de mim vieram à tona quando um sonho de ser campeão virou desilusão. Fiquei dentro do vestiário por uma hora, conversando com o dono do time, meu melhor amigo. Falamos sobre coisas da vida, do time, da vida-e-do-time, o que afinal representava fazer tudo aquilo. Ganhar não deveria ser o objetivo principal. E não é.

Fui para o teatro pronto para esquecer isso de ganhar e perder. Tenho problemas com isso. O Candé fez uma "olimpíada", com notas e tudo, e isso me perturbou. Queria tirar do palco uma boa metáfora para levar ao vestiário.

E tirei. Hoje foi o dia que mais me senti participativo, e, no entanto, fiquei, ativo, no palco, por no máximo 5 minutos. Mais assistimos do que fizemos, e não participamos menos por isto.

Foi noite de ver as soluções que os outros encontram, a seu favor, a favor do grupo. Ver o talento deles. Talento sem adversário, sem resistência vestindo outra cor. Se por um lado a vida nos ensina que nem sempre quem faz melhor é quem se dá melhor, por outro nossos companheiros provam que a arte não joga contra ninguém, e é por si só vencedora.

Daí me vem Cíntia e seu fofuxo "tíruríru riru riru", Tadeu com o domínio de sempre, o expressivo Cristian e sua implacável estatura-envergadura fazendo o fresquinho pintor francês, Lívia e Priscila num dueto nota de fato 10.8, as fotos de Chris e Carina, a nerd bonitinha e legalzinha da Paty, Sophia Guadalupe e seu delay, a aflitiva drogada que se tornou Deby Polaca, a confusa senhorinha Rackel, e mais essa, e aquela, e aquela outra, e sério: não tenho a conta de quantos personagens excelentes pisaram naquele palco desta vez. Não teve exceção, todo mundo deu passos à frente ao treinar por hoje.

O que seria um presente e me faria dormir feliz.

Mas aí a irmã do dono do meu time de várzea, o meu melhor amigo, sofre um aneurisma com 24 anos e tudo que eu penso que sei e aprendi sobre qualquer coisa muda de figura. E eu paro de escrever.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Um Poema aos amigos...


Poema do Cume

No alto daquele morro, plantei uma roseira; o vento no cume bate, a rosa no cume cheira.

Quando cai a chuva fina, salpicos no cume caem, formigas no cume entram, abelhas do cume saem.

Quando cai a chuva grossa, a água no cume desce, o barro no cume escorre, o mato no cume cresce.

E quando cessa a chuva, no cume volta a alegria, pois torna a brilhar de novo o sol que cume ardia.

(autor desconhecido)


Só pra descontrair ok, galera...


E essa foto é do nosso exercício de sombra da segunda passada...No meu 4º perfil do orkut tem mais.



segunda-feira, 26 de abril de 2010

Salame com whisky

Hoje, em tópicos

Ah, a cerveja. Hoje não bebi, estou saindo de uma gripe. Mas brindei, e eu tenho TOC com brinde, se eu brindo eu preciso beber. Superei. Deto Montenegro é o diretor do Noturno. Ele estava lá. Ele disse que quem tem síndrome de down diz as coisas que você sempre quis dizer, mas nunca teve coragem. Puta que pariu, Deto, pão com salame e whisky não dá, é uma combinação impossível. Horrenda.

E vamos aos fatos, vai, sem formalidades. Um pedaço do sanduiche do Deto voou de sua boca para dentro do copo da Maps. Acontece porra, acontece.

Bruninho instalou a crise no seio do grupo notúrnico? Talvez, mas eu acho que colocou, ele, a essência da verdade em nosso convívio. Afinal, todos nós já pensamos ao menos uma vez que a Paty, por ser baixinha, chata e feia, deveria se matar mesmo (puta que pariu, como eu ri).

Ao que consta, isso é, não apurei, não fui atrás de saber, meu telefone tampouco tocou, até o momento da redação deste texto, Marcão, o Jerry Lewis da noite, ainda não conseguiu comer ninguém (puta que pariu, como eu ri²).

Na turma temos a Roberta. Ela é a imagem mais inofensiva do mundo fora do palco. E uma bruxa digna de Oscar quando entra em ação. Nossa pálida e carismática feiticeira defendeu uma tese interessante: que a poluição do mundo está ao nosso redor e entra pelo nosso rabo, para sair pelo rosto, causando assim a conjuntivite, o que justifica que Lívia quisesse falecer. Por isso, estamos cercados por conjuntivites. Faz sentido (puta que pariu, como eu ri³).

Aliás, Livia, a rouca (Cebolinha a chamaria de "a louca", e não estaria errado, vai saber...), reclamou que na última semana eu não escrevi nada por aqui. Simples, chuchu: não queria forçar seus conjuntivitos olhos (os momentos mais importantes da vida deveriam nos permitir uma hora ou mais para raciocinar o que responder. Quando ela me cobrou eu apenas pedi desculpa. Sem sal). Me saí bem?

A Sophia, todos nós conhecemos. E ninguém se opõe ao delicado sorriso de Sophia, isso é um fato. Sophia é boa atriz. Engraçada também. Num dos assuntos (seríssimos) que abordamos antes do treino, ela imitou um sorriso de baiacu. A Sophia vocês conhecem. Um baiacu sorrindo, talvez não. Está aqui. Pode parecer impossível, mas teve sua semelhança.








Paula nos deu um susto. Sentiu calor depois frio, quis sentar depois deitar, teve siricoticos, mini-desmaios. Ligeiramente febril, provavelmente com coceira por vestir um agasalho do Palmeiras, foi-se embora antes do fim.

Eu fui com Carol, Arthur e Victor levá-la até a portaria. Quando voltei, o exercício acabara de começar e eu não quis entrar. Fiquei com o hall de acesso ao teatro só pra mim. Me encostei na parede, pouca luz, o som que vinha lá de dentro (e está aqui no pé do texto), e só nesses minutos privativos que me dei conta que maio está aí. Já conheço essa galera há 3 meses. Já são meus amigos de longa data, de infância, quase. E eu não sei ao exato o que imaginava que seria. Seja como for, é mais do que esperava.

O Tadeu já está tirando do forno a imitação do Candé. Caralho, se o Tadeu não nascesse menestrel, nasceria papagaio. Não pode ouvir uma voz, que aprende a imitar. Ok, vamos aos pitacos finais: Brunão dança um samba espetacular, não é, meninas?; se ouvirem falar de um carro que entrou no meio da pista do aeroporto de Guarulhos, foi a Adriana, a aprendiz de condutora Adriana; as unhas da Deby são azuis claras; são não, estão; estão sim, mas e daí?; eu adoro estar com vocês.

Imagens conseguidas no mercado negro russo

terça-feira, 13 de abril de 2010

Tentando voar...

Descobri, com a ultima semana, que se o trabalho me pega ou o sono me vence na madrugada de segunda para terça, de modo que não escrevo nada sobre o Noturno, não será nem na terça, nem na quarta, que o farei a contento.

Foi o que aconteceu na semana que se passou. Na segunda não deu. Escrever sobre estas coisas exige, pelo menos em mim, que o cansaço ainda esteja presente, sem ser maculado pelo sono-em-dia. E que eu não tenha 12, 24 horas para pensar no que vou rabiscar.

Meu punho dói que é uma beleza. Treino dado por Deto, Lê resolve "voar", e voa, e cai, com o pulso antes do corpo. Ao menos, por dois segundos, eu realmente acreditei que posso voar, e lhes conto: é uma sensação muito boa!

A dor no punho a que Deto me "induziu" encobre a chata dor no joelho, que determinados movimentos às vezes me fisgam. Exigi deles (os joelhos) mais do que o saudável recomenda por todo o fim de semana, e na segunda ele estava baleado. Perfeito, portanto, para fazer duas fotografias: a estátua d´O Pensador, e um sujeito sentado numa privada. Privada onde os burros cagam neurônios de joelhos torcidos.

Os segundos à espera do fim desta cena foi angustiante, e honestamente tive a impressão que o Candé me deixou naquela posição por pelo menos 3 estações do ano.

Estou ouvindo Rita Lee e no meio da música uma inserção nonsense de Norah Jones interrompeu meu fluxo, e voltou para Rita Lee sem que eu entendesse como isso é possível. Estou ouvindo um CD. Repito: um CD. Bizarro e inexplicável. Fica o registro.

Voltando. Falava de fotos, pulsos, joelhos. O time de futebol que jogo (e é meu primeiro time do coração, que me desculpe o futebol profissional), cujo qual sou o capitão, me leva ao Noturno de joelho baleado, às vezes. Eu também levo algo do palco para o vestiário. Este sábado mesmo eu discursava aos companheiros o quão importante era ter convicção, mostrar convicção, mesmo errado. Não era oportuno citar a fonte, é importante para meus colegas imaginarem que sou um super-herói cheio de ideias legais.

Não sei se super-heróis (nunca assisti desenho de herói, culpa da ESPN) servem para casos de acolhimento e segurança, ou se eles só agem com força, na hora da guerra e do conflito. Foda-se. A homogeneidade do grupo vai me deixando cercado de pequenos heróis, e são vocês, noturninhos.

Não apenas na parte física, como Mariela e Nahomi com suas articulações de mulher-borracha. Me refiro a estar machucado e a Andrezza ter uma UTI móvel dentro da bolsa. A sensação de que se me der um branco, o Tadeu e sua energia vão impedir que a peteca caia. De que as ideias que eu terei nunca estarão sozinhas, por mais indecentes que sejam. Que vai sempre ter um sorriso leal feminino se eu baixar o astral. Um abraço fraterno masculino também não faltará.

Nem faltará quem esteja atento para me dar luz, me indicar um caminho, me emprestar o que já absorveu, ensinar o que já entendeu. Sobram copos para eu fazer meu brinde, e também sobram gestos mais largos, menos largos, mais assim, menos assados do que o meu, vozes diferentes que complementam a minha, jeitos de ser que fortalecem o meu.

Dialeticamente, eu não existo sem a existência "do outro". Putaquepariu, claro que não quero falar de dialetica (que perdeu o acento, eu acho). Como exemplo, ator e plateia: se um não existe, o outro também deixa de existir.

Somos um monte de "outros" juntos. Somos células do mesmo órgão. Todos nós juntos somos um só "eu", ou um só "treco", sei lá o que, sem dialetismos-morfológicos-semânticos-cururús. Quero dizer, só, que estar junto de todos numa bagaça dessa redimensiona a mim mesmo (nós mesmos), potencializa, permite que eu seja um circulo, que eu tenha 40 metros, 40 vozes, 40 ideias simultâneas. Que eu seja o que jamais seria sozinho.

Isso não é um pouco a função de um super-herói? Acho que foi por isso que tentei voar...


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* Tomando cerveja após o treino de hoje, um acidente de carro bastante barulhento assustou a todos e para mim, que realmente tenho medo e trauma de carros, foi legal escrever sem citar isso. Afinal, se eu quero esquecer, não preciso lembrar.


*Abaixo, vídeo-canção que deveria ter postado aqui na semana passada, mas que, como não dei as caras, não o postei. Quem ouvir vai se lembrar de um passado nem tão distante.

terça-feira, 30 de março de 2010

Ninguém supera essa Galera...

Nem Zorra Total, Praça é nossa, Pânico ou CQC. O melhor programa de humor semanal é sem dúvida nenhuma, NOTURNO 2010. E no programa de ontem os artistas mostraram que humor é com eles mesmo. Começando com a dublagem de "Rebeldes" e "I will survive" por Tadeu e Livia, que prenunciara a nossa noite de espetáculos. Socos na cara e capotes marcaram de forma dolorosa o humor daquela noite; felizmente Aimeé (soco na cara) e Flavinha (capote) terminaram o treino bem.

Dai começaram as piadas. Uma melhor que a outra, deixando o nosso programa humorístico de segunda feira ainda melhor. Interpretar a piada com o corpo não é uma tarefa fácil, ainda mais quando os textos das piadas são substituidos por cores, números, partes do corpo e palavrões.

E quantos palavrões. Nem o pior e mais enfurecido ser, conseguiria fazer o que os nossos menestréis fizeram, realmente eles foram do Ca#@&%$ (rs)!!!

Mas o melhor ainda estava por vir, o momento em que realmente mostrariamos com quantos paus se faz uma cena, o ápice da segunda-feira chuvosa que influenciou no córum da aula de ontem.

Com certeza, Nossa Senhora da Criatividade está descontente com seus devotos menetréis, pois segundo o diretor desse programa semanal de humor, os atores estavam tomados por uma preguiça mental, uma ingenuidade indescritível nas cenas, não conseguindo fazer com que um simples pedaço cilíndrico de madeira se torne algo diferente daquilo que normalmente se imagina, desde um "motoboy que tentou ser bruxo dando partida na própria vassoura", até as 123.456.789 zilhões de "espadas de esgrima". Mas falando a verdade, isso foi o que deixou as cenas mais engraçadas e inenarráveis.

E o que dizer do Joe? Que de forma preventiva preparou o segundo pedaço de madeira para que a cena não parasse, como se ja soubesse que alguém tentaria de forma insana se pendurar na frágil varetinha tentando imitar um frango, e como dizer que essa turma não é criativa? Parabéns ao nosso técnico de luz e som.

Por enquanto estamos sem público, logo não temos o ibope esperado, mas mesmo assim termino dizendo que NINGUÉM SUPERA ESSA GALERA!!!

Tadeu França ;*

sexta-feira, 26 de março de 2010

Noturno Social

Moçada,

Candé nos pediu no ultimo treino. Vale a pena. Não dói nada, faz bem pra nossa saúde e ajuda os outros.

Doem sangue.

No Hospital das Clínicas, cheguem, peçam para irem ao setor de doação, e façam a doação em nome de Sidnei Salvador, o Dinão, que é parceiro dos Menestréis.

Façam mesmo. Vale a pena. Eu farei assim que puder de novo (doei a ultima vez em janeiro).

segunda-feira, 22 de março de 2010

Carta para Paris

Querido Jean,

Eu sei que você escreveu seguidos erres e esses no computador de minha prima. Imagino que riu de verdade, gargalhando na poltrona amarela na manhã de Paris. Sempre que penso em você em Paris, penso que é manhã. Não sei porquê.

Mas o que ela falou é sim verdade. Esses 190 centímetros magrelos estão dançando e cantando. O zagueiro estabanado e chafurdante que tu conheceu tão bem agora deixa a espinha ereta em cima de um palco.

Sabe, Jean, foram tantas idas e vindas que eu nem sei mais. Hoje, no treino de hoje, por exemplo, eu vesti uma camisa do Santos. Tá, pode rir de novo - gosto do seu riso, amigo -, mas o fato é que aquele palmeirense intransigente que eu era, hoje é mais relativo. Mais razoável. Eu mudei. Apenas mudei. E quem não mudou?

O estranho é que a vida me fez mais sério, mais velho, mais triste. Um pouco mais sozinho do que já era. Com menos orações e menos planos. Mais simples. E fazer teatro, Jean, vai na contramão do que eu digo de mim. Eu sempre fui contraditório, mas não é essa a questão. Não é contradição. A mesma vida que me fez tanta coisa é também a responsável por isso. É tudo um plano mestre, um organismo que não se enxerga, e você sabe disso melhor que eu.

Por aqui, Jean, tenho descoberto poucas coisas. No palco, descubro - e invento - a todo segundo. Tem negra, branca, loira, morena, homem, mulher, heterossexual, gay, alto, baixo, cristão, judeu, tudo tem. Tem olhares. Novos, velhos, experientes, imaturos, casados, solteiros. Lembro quando você viu uma amora na prateleira do mercado. Tudo perde magia quando sai de uma árvore e chega numa prateleira.

Estou indo buscar pessoas na árvore, e não no mercado. Pessoas que se permitam, deixem o ridículo, não se vistam de pragmáticas urbanóides, que se concentrem e não fiquem acanhadas caso trombem nas minhas costas ou pisem em minhas horrendas unhas. Estou rodeado de gente talentosa e que sorri pra mim, e que espera algo de mim, que quer ir em frente comigo do lado. Gente que compõe o organismo que eu enxergo.

Já entendi muita coisa desde quando você foi embora pra Paris. A importância de alguém que te estimule a pentear os cabelos, os signos mentirosos por trás de cada coisa retumbante que sentimos, o quão fundamental é silenciar, respirar. Entendi a verdade de minha mãe, o caos da minha cidade, a sutil diferença que separa aquilo que dá certo daquilo que dá errado.

A mim, eu continuava não entendendo. Queria te dizer que quando estou no palco, eu me permito sonhar. E do meu sonho eu entendo. O sonho é um caminho válido. Lúdico e bem-loucão, mas válido, para se chegar á realidade. Não é um atalho, pode até demorar mais. Mas é mais legal.

Resumindo, caro Jean, espero que seu amigo aqui tenha uma semana de sua companhia no 2° semestre, e que você me veja, no palco, e que gargalhemos juntos. Te apresento meus novos amigos, você me mostra suas fotos, eu te faço aquela batida que gosta, e você me abraça como o bom amigo que é.

No treino de hoje, o diretor pediu para, em câmera lenta, eu traduzir em gestos a saudade. E eu te abracei, abracei o seu vento. Acho que isso resume muita coisa que eu poderia te contar sobre eu estar fazendo teatro, 5 anos depois.

Espero que tenha sentido meu abraço.

Au revoir,
Leandro Iamin

Somos NOTURNOS!!!

Somos a Noite, o Trânsito, o Escuro.
Somos Deuses da Loucura, Cristos, MENESTRÉIS.
Somos Vendedores, Suricates, Tartarugas e Leopardos, sim, nós SOMOS.
Somos o frio na barriga, ansiedade, felicidade, vontade, a cerveja do pós-treino.
E dentro de tudo isso que somos, ainda sobra espaço para uma dúvida: "Como é que se faz pra tomar condução por aqui?"
Com muito orgulho...Somos festa! Tiramos o Sol daqui e de lá, suamos bastante pra regar a plantação de um sonho que em Outubro se realizará.
Somos Madana, Mohana, Murari e Harebô!
Somos Luzes, Blecautes, tempos de 8, Estátuas, Espelhos.
Somos o JUNTO, mesmo as vezes separados!
Somos o sorriso de oi, o choro de tchau, somos o lance que a Mooca tem, somos a inscrição pro festival.
Somos o cansaço, dor, sono, saudade...e quanta saudade.
Somos amigos, irmãos, pais e mães.
Somos atores, diretores, cantores e sonoplastas.
Somos Criaturas da Noite, somos EQUIPE, Somos FAMÍLIA.

SOMOS...NOTURNOS!!!

Tadeu França ;*

terça-feira, 16 de março de 2010

Sim, o Noturno começou!

Ontem me dei conta disso.

Nós cantamos!! Esperei tanto por esse momento... e como já citado pelo Leandro e pela Maps, o mantra: Madana Mohana Murari.

Gostaria de deixar firmado aqui minha felicidade em pertencer um grupo incrívelmente diversificado. Em algumas horas de bar eu ouvi e vi tantas coisas, ri de algumas e me entristeci com outras, por hora eu ficava quietinha só observando, em outras me deu vontade de sentar (como sempre acontece) em outras me bateu um sono.

Vejamos então o que rolou por lá >>> um boato de beijo homossexual, um casamento em Las Vegas, uma foto que não poderia ser tirada de baixo pra cima rsrs, um ensaio de coreo, meninas rindo à toa, um sitio, idéias de vitrine, um abraço de urso de meninas num menino, risos, cerveja, fumaça, muita fumaça de cigarro.

Tudo isso é como se fosse um livro, cada semana a gente lê um pouquinho e conhece novas pessoas, novos caminhos, novos limites. Estou amando essa leitura.

Também quero viajar nesse balão!!! Superfantástico.

Boa semana,

Dri =)

Cante o nome de Deus

Uma amiga linguista lá do interior do Rio Grande do Sul me manda um telegrama com curiosa explicação a respeito de nosso mantra cantado no último treino.

Com a ajuda de "Maps", que pesquisou sobre o canto, enfim, chegamos a como é e ao que significa.



Madana, mohana, murari
Haribol, haribol, haribol

Por seres mais sedutor do que o próprio cupido, roubaste o meu coração
Cante o nome de Deus, Cante o nome de Deus, Cante o nome de Deus

segunda-feira, 15 de março de 2010

15 de Fevereiro: psicodelias e novos começos

O Noturno, o teatro, a arte, nos deixa num estado super bacana, no maior dos astrais. Fato. Hoje tinha que senti-lo
por questões práticas.

Minha tia-avó morreu no domingo, a segunda-feira foi reservada para aquelas coisinhas de enterro, tudo que deixa um ambiente não muito legal. E eu fui xingado.

É, me mandaram tomar no meu cu. Por outro assunto, na verdade, mas com muita vontade, muita verdade, sinceridade, e acompanhado dos desejos que eu sumisse da face da Terra.

Fazia tempo que não me desejavam isso assim, com tanta força. O Deto falou no treino sobre a energia que 400 pessoas depositarão sobre a gente, que estará no palco, a cada vez que Noturno começar e terminar.

Não sou alheio a isso. Acredito bastante, inclusive. Estava meio tchuns. Com medo de murchar lá no palco e atrapalhar os coleguinhas.

Deu certo. O meu pé tinha 2 furos e 2 quase-furos de prego-de-chuteira na sola. Doía mas não passei por maiores problemas, posto que até enfermeira informal eu conquistei na noite de hoje.

Fiquei satisfeito com o grau de concentração, minha e do grupo. Tá, eu fiz um homem querendo comprar cadeiras inspirado num suricate, mas isso não foi culpa minha. Tá, confesso, tava rindo de bobeira numa das fotos de grupo onde deveria estar paralisado, mas nossa cabeça às vezes viaja.

A Lívia-1985, que alterna meninez e maturidade quando olha brilhante e sorri metálico, tinha tudo pra foder de vez com meu dia um pouco acidentado. Eu só precisava olhar pra ela e copiar, em seguida, a pose que ela fizera junto de uma cadeira. Eu olhei. E ela estava debruçada com braços para um lado, pernas pro outro, pescoço pro outro, esticada, como uma bailarina. Contei até 8 para repetir a imagem. E até 10 para não destratá-la.

É importante destacar que cantamos, neste treino. Usamos a voz para entoar um sinistro mantra, um tal de radãna-rashãna-arará obuê-bô. Não era bem assim mas é mais legal imaginar que era.

Pude me imaginar numa viagem psicodélica ao som desse mantra, algo como 20 pigmeus com o rosto de Jow batucando o mantra enquanto Tuti fazia seu perfeito tatu-bola-lombriga-cambalhota por um caminho de terra, e que terminaria, certamente, num jogo de flashes hipnóticos contendo uma roda fora e uma roda dentro, cercadas por leões-Dandrades.

Era aniversário do espevitado Arthur. O menino-mascote do simpático Bar Ipê foi o mote necessário para que se juntasse enorme turma ao redor da mesa. Um pós-treino de impor respeito.

"Hoje começou o Noturno!", bradava uma de nós, criaturas, elegendo o momento como marco do entrosamento. Elegendo, momento, entrosamento, 3 palavras de sonoridade parecida, eu deveria mudar o parágrafo, mas foda-se.

Um ponto importante da noite de hoje foram as fotos. Tiradas aos montes. Aguardemos pela publicação daquelas que são publicáveis. Todas são. Vale tudo? Não, nós que somos bacaninhas.

IMPORTANTE 2: escrevi tudo acima ouvindo um CD do Pearl Jam, para achar qual foi o raio da música deles que ouvimos em dois de nossos exercícios hoje. Eu estou irritado, não era bem Pearl Jam que eu queria ouvir agora. Nem vou colocar Hey Jude aqui, pra não ficar repetitivo. Mas porra, que banda chata do cacete. Não achei a música, wathever, que tiver a bondade, ponha nos comentários.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Vitrine!

A criatura Marcus Paulo, voz sempre serena e olhar sempre calmo, é quem nos faz esse lembrete, em outra mídia, que, claro, passo para cá:

de Marcus Paulo

Para os novos que nunca frequentaram a Oficina, vou explicar o que é o VITRINE.

No final deste modulo de exercicios acontece uma apresentação nossa aos nossos convidados e na faixa.

Não tem diretor Deto nem Candé. As apresentações são livres com duração média de 3 minutos. Pode ser canto, dança, poema, atuação... Tudo que você puder usar o que aprendeu nestes meses.

Ainda não sabemos a data, mas vale para todos começarem a pensar em idéias para fazermos uma grande apresentação.

As musicas normalmente são entregues ao Jow alguns dias antes para que ele tenha conhecimento prévio da apresentação resumida por vocês. Não judiem do Jow inventando coisas loucas demais, .

Sugiro que assistam alguns que estão por vir, de outras turmas.

Quem puder dar mais dicas do Vitrine... Manda bala!

quinta-feira, 11 de março de 2010

Cadê a cerveja?

Foto notúrnica tirada pelas mãos trêmulas de Arthur, o nosso lépido e fagueiro surfista-funkeiro-babalorixá.

Um erro, muito, muito grave: a foto foi tirada ANTES que chegassem as cervejas.

A mesa ganha ares lúgubres. Mais uma imagem notúrnica que não mata nossa sede. Mas quem está nela bebeu, e bem - menos a Rackel, que teve que virar copo e tudo, uma loucura.

terça-feira, 9 de março de 2010

8 de março: dia das mulheres, dia de estreia?

Alguém com mais capricho ou filosofia diria que estreei no Noturno nesta noite de março que se passou. Porque? Porque amanheci com a palma da mão roxa. Estapeei errado o tablado, não sei o que foi, antes só doía, mas, uma noite de sono depois, e tenho um roxo, um inchado, mal posso cerrar os punhos.

Cerrar os punhos. Não poder serrar os punhos é algo muito ruim para uma criatura da noite.

É que foi um transe. Fizemos uma cena no começo do treino em que a sintonia do grupo foi provada pelos gritos de todos no final da mesma. Coisa de maluco. Não lembro o que levou a cada coisa, mas lembro que fluiu, o som, a luz, a harmonia do grupo, dei cambalhota, desobedeci, viajei, machuquei a mão. Estreei?

Fui para o teatro ouvindo James Taylor no ouvido. Quando cheguei no metrô Ana Rosa, me dei conta que foi aquele o metrô que tomei quando, mais de uma dúzia de meses atrás, encerrei um equivocado noivado. Eu sou muito desatento às vezes. O teatro fica na rua da frente à que ela morava. Sei lá se ainda mora, mas é engraçado que o mesmo cenário sirva para duas atividades tão antagônicas.

Os passos que dou do metrô para o teatro são diferentes. É como sair do meio de campo para cobrar um pênalti importante (eu nunca perdi um pênalti na carreira, ok, perdi um mas fiz o gol no rebote, ok, mulheres ou quem não joga bola ou quem não bate pênalti, não vou atrás de outra metáfora). Excitação e ansiedade tomam conta. E você aguça os 5 sentidos, e o 6°, e o 7°. Fica focado, concentrado desde já. E até esquece que aquela farmácia de esquina já te forneceu curativos para um corte nas nádegas (isso é a mais pura verdade, ainda que me denigra).

Falando em concentração, ou em bater pênalti, hoje foi a primeira vez que testei a voz, a voz sozinha, a fala, a dicção, no palco, para ser ouvido pela plateia (reforma ortográfica: porque tirar o acento da platéia?). Eu me permiti deconcentrar-me e acho que me arrependo disso. Acho que ri e relaxei com a apresentação que antecedeu a do meu grupo, mas o fato é que não cuidei dos meus passos, meu ombro, notei um pouco de timidez com os braços, e a fala, o repertório, pagou o pato.

Concentração precisa ser tudo pra mim. Não só quando estou lá em cima. Notei que não assisti da maneira que deveria assistir aos outros grupos.

É importante ressaltar que mais uma vez acabei num grupo com só eu de homem. Mas eu era apenas um vendedor, dessa vez. No dia internacional da mulher, até que é legal notar isso. E lembrar que, em câmera lenta, fui golpeado com um soco e uma torta na cara, e não pude nem ficar bravo, posto que os atos vieram seguidos de enternecedores sorrisos. Feliz dia das mulheres.

Os boatos de uma festa, balada, churrasco, reunião ecumênica ou leitura coletiva de teses de doutorado já ganha mais força. Sinto cheiro de festa no ar. Deve ser bom não ter hora pra terminar uma reunião com essa moçada. A Maria Paula, que é a campeã portodegalinhense de cerveja-via-canudinho, batendo na final o Sêo Ubaldo, lenda viva da região, precisa não ter hora para parar de beber comigo. Opa, gancho perfeito: a cerveja pós-treino.

Não dá tempo de conversar largamente, de engatar a quinta, de desfrutar da companhia de todos. Logo chega a carona de um namorado, a aí pelo menos vemos uma virada de copo de cinema. Depois o metrô varre componentes da mesa. Mas eu não estou reclamando, não sou ranzinza. Tá, sou um pouco. Puta que pariu, esqueci de trazer embora a bolacha. Eu coleciono. Não inéditas, mas de quando bebo. Anoto dia e companhias. Disse isso na mesa. E esqueci a bolacha. Idiota.

Devo dizer que a casa me afetou. Ou, em casa, me afetei. Uma pipoca e uma Rita Lee depois de chegar, senti mais propriamente o impacto de tudo. O estrago que faz. Em mim é brutal. Eu conto abertamente, quando é o caso de contar, o porque de estar alí e o que me antecede. Não é lá muito administrável. Cicatrizes, saudades, levo tudo pro palco, é uma missão.

Tem um desabafo aqui na garganta. Todo mundo é um pouco de desabafo contido, esperando sua hora de sair. Estar na posição de criatura da noite, assusta. Intenção e gesto se equalizam. Potencializa uma coisa selvagem. Quando decidi cancelar, anos atrás, meu relacionamento com os palcos, acabei adiando muita coisa pela vida. Todos adiamos. E não pode sair tudo de uma vez. Senão dá cegueira. E já basta a escuridão.

Quem pega o bife menor na mesa, um dia vai querer o maior. A renúncia é também espera. A bondade também espera recompensa. De alguma forma, isso me explica lá no treino. Eu larguei os palcos em 2005, optei por um teatro sem cortinas, solitário. Uma opção de renúncia, mas de espera. Que chegou à sua hora. Hora de ter um espaço, de aumentar-se, de projetar-se, num corpo de 40 pares de braços. Um teatro com cortinas, num grupo.

Isso não é só curtição. Tem um baita peso humano.

* * *

Na noite de ontem recebi as primeiras impressões sobre o nosso blog. Show. Mesmo. Tenho certeza que vou sorrir bastante quando começarem, todos, a escrever também. Vocês sabem como postar aqui, no orkut tá explicado e se não tem ou não viu ou não sabe, pergunte-me como. é parede para todos nós pintarmos. Eu escrevo, é minha profissão, minha compulsão, mas adoro ler também. Portanto, aguardo os escritos das criaturas.


terça-feira, 2 de março de 2010

Merece um quadro (???)

Me foi cobrado, e eu achei que vale a curiosidade.

Abaixo está a primeira foto do grupo do Noturno 2010. Desgraçadamente, esta foto é, desde que nasceu, imortal. Péssima. Quase nada se vê.

Mas somos nós. Não que sejamos gênios da arte, mas tenho certeza que merecíamos uma primeira-foto mais, digamos, estética.

Hehe.

Enjoy, criaturas!!!

Bom, agora que o blog está devidamente publicado e anunciado entre a turma, vamos ao assunto diretamente: quando outubro chegar, olhem que óbvio, 7 meses terão se passado. Sem pisar em ovos, quando acaba o objetivo final, o grupo não é mais capaz de se unir como se unia.

Em outras palavras, a hora de fazer é desde ontem, anteontem.

Para isso, eu me proclamo um dos necessários gestores de organiação e comunicação de eventos noturnísticos.

Precisamos de agentes, pesquisadores, tesoureiros, publicitários, departamento comercial, de logística, de cobrança, de checagem, e tal e cousa e lousa e maripousa.

Porque o tempo passa rápido e é preciso pensar em uma viagem entre os módulos, uma praia, um campo, uma cervejada sem hora pra acabar, um churrasco, um evento musical, artistico, religioso, medicinal, mediunico, etcetera e tal.

Conclamem-se, proclamem-se, pensem, digam, cobrem, reflitam, façam as contas, olhem o calendário.

Isso aqui (ô ô) é um pouquinho de Noturno (iá iá).

* * *

ps.: lembrando que este espaço é para TODOS escreverem TUDO que quiser. Não sabe como? Pergunte-me como. Tenho e-mail, tenho msn, tenho endereço, tenho telefone, tenho login e senha deste blog para quem quiser usar. E não me interessa usa-lo sozinho. Fiz para o grupo.

1° de Março. Dobrando os joelhos

Eu pude ver todos os olhos fazendo a mesma conta que eu. Todos chegaram ao mesmo número final ao mesmo tempo que eu. Éramos 8. 7 mulheres. E foi assim que não se podia mais ir contra: faríamos as cenas de Branca de Neve e os 7 Anões.

Claro que a masculinidade desses 7 anões é menos impactante do que a feminilidade de uma Branca de Neve. Acho que suportei bem a pressão. No tempo de colegial, após sair de quadra contundido 3 vezes seguidas, o ginásio inteiro entoou o côro "Princesa, princesa" para mim. 5 minutos depois eu quebrei o nariz numa dividida, e queria saber que tipo de princesa passa por isso.

De toda forma, desde aquele dia que não precisava de uma concentração diferente da linear. Piadas à parte, o exercício em questão foi o primeiro objetivamente radical no escuro.

Ele, assim como o que o antecedeu, consistia em sair da coxia e voltar pra ela, no escuro completo. Aquilo que o público do Noturno, quando assiste, não consegue entender como é possível ser feito.

Hoje aquele sonho louco de espectador começou a ser desmistificado. Andar no escuro, posição de fera, ouvido aguçado, todo o tato do mundo na planta do pé, mãos em alerta de proteção, instinto, faro também, noite. De todas estas sensações animalescas e demasiado humanas surgir a Branca de Neve é que é o engraçado.

Outro ponto me preocupou. O amor da minha vida é meu time de futebol de bairro. Que joga bola e ajuda o bairro, ajuda a comunidade, mais que qualquer político. Não posso romper com esse time, esse ideal (sabiam que fui premiado líder comunitário em 2006? Grande merda né?). Mas também não posso romper meu joelho.

E meu joelho falseia. Às vezes apenas dói, noutras vezes falseia. A academia que fazia pra fortalecê-lo foi suspensa. Motivo: dores. Hoje precisei me equilibrar nele. Colocar peso nele. E senti que ele tremeu um pouco. Fiquei tão afetado com isso que o coitado do meu parceiro, que esperava de mim um espelho, só viu equívocos.

Não é que seja insuportável, ou que esteja a ponto de arrebentar. É que não está perfeito. E o resto, em cima do palco, está perfeito. Cabeça, coração, pulmão, braços, tudo está perfeito e o joelho tem que vir nessa. "Joelho, o corpo é seu grupo, você precisa estar junto, junto, junto dele", queria dizer.

Não posso cogitar perder uma dança, um um dia que seja, por conta de dores no joelho. Por pensar nisso, me antecipo a um problema que não existe ainda. Isso me desconcentra.

No mais, o grupo vai conquistando sua cara, seu estilo, vai ganhando indpendência, caráter, vai sabendo o que tem que fazer. Vai arriscando. Cheguei 20 minutos antes e a maioria do pessoal estava em cima do palco. Isso diz muito. Eu vi coisas realmente boas nos exercícios do pessoal ao meu redor.

Em alguns exercícios, tocaram músicas especiais para mim. Uma do Pink Floyd e outra do Oswaldo Montenegro, notadamente emocionantes. Mas teve uma boa serie de canções dos Beatles. Como pretendo deixar uma canção de cada treino, aí embaixo vai uma delas, uma destas.

Saio de mais um treino com uma sensação estranha. Não me perguntem o que é, mas é estranho ir conhecendo vocês. Quem mora aqui, quem mora lá, quem bebe, quem fuma, quem faz academia, quem tem filhos, quem namora, quem canta, quem isso, quem aquilo. Informações. Humanizando e aproximando uma galera que eu passava um bom tempo inventando sozinho na cabeça.

Atentos, criaturas da noite. Hoje foi o treino 4. Quatro para nos conhecermos.

segunda-feira, 1 de março de 2010

22 de agosto: as primeiras lágrimas

Voltando do carnaval, portanto a 14 dias sem palco, até o sol veio fazer o treino. De noite, sim. No Noturno, sim. O sol estava na coxia. Pelo amor de deus, o que mais justificaria um calor ainda maior do que o de antes?

Era aniversário da Adriana. A pequenina de cabelos cacheados levou um bolo para o momento do intervalo. Bolos em aniversários a gente vê em famílias. Adriana estava certa.

Estamos conseguindo mais foco, nosso arcabouço de recursos, informações e reflexos já mostra volume, ao mesmo passo em que novas coisas nos chega. Trabalhamos bem mais no escuro, dessa vez.

Fizemos um exercício em grupos de cinco. Resumidamente, foi na sétima hora de palco que acabei chorando pela primeira vez. Não deixei o sonho do hipotético público ir por água abaixo. É o mandamento do grupo.

Mas chorei com Joe Cocker, sua canção tão bela. Fui pra coxia e lá fiquei um pouco ao fim das cinco músicas, todas dançadas como se a primeira não tivesse me detonado.

Sequencias mais longas, informações mais densas a se decorar, exigências maiores em termos de expressão e postura. É isso que trago deste terceiro encontro. Um encontro substancialmente mais íntimo.

Os homens se permitiram até treinar sem camiseta. Num dos exercícios, é bem verdade que quase ninguém viu, mas eu fiquei de sunga, minha querida sunga de piscina. Fiquei preocupado em ter sido deselegante. Tolo.

Mas nem é por isso, ou nem por fodermo-nos com cabelos ou quetais, nem pela festa de aniverário, tampouco pela maquina fotográfica que lá apareceu, ou sequer por um exercício conter cumprimentos bunda-com-bunda.

É o conhecimento coletivo tornando o grupo homogêneo. É assim mesmo que funciona. Buscamos mais soluções, tratamos coisas que antes eram determinações e agora são apenas atos naturais.

Nossos diretores dizem coisas muito legais. Algumas delas a gente conta, outras a gente guarda. Dois mais dois, pra gente, precisa ser 17 convicto, mas não pode ser 4 burocrático. É nossa convicção pra pisar errado, ser torto e andar fora da linha que nos difere.

Esse é o conceito que mais senti organicamente dentro de mim no dia de hoje. Consegui me sentir mais convicto. Para ser perfeito, realmente milhões de grupos fazem melhor que nós. Nosso diferencial precisa estar na convicção.

É preciso sensibilidade, estar sensível a isso, a se desligar do que geralmente não se desliga, levar-se totalmente ao descrédito formal.

Acho que You Are So Beautiful, logo no começo do treino de hoje, me emocionou e me ajudou a doar-me um pouco mais. Bastante mais.


8 de fevereiro: a primeira cerveja

Resumidamente, o aviso na parede do teatro Dias Gomes nos informa sem rodeios que a ventilação está defeituosa.

Faz um calor que sequer fotos das minhas axilas poderiam descrever. É a sensação que vai ficar desse início: o calor louco.

Em uma semana, a gente já conhece muitas caras, alguns nomes. A internet nos ajuda. O Santos ganhou do São Paulo: são dois os santistas do grupo. A Maya e a Adriana, assim como eu, curtem um BBB numa noite de ócio. O Cristian e o Marcus Paulo me confundem. Tuti e Deborah também.

Wathever. Na primeira aula estivemos com Deto. Hoje, Candé. A mesma dinâmica. Desde 1991 a Oficina dos Menestréis treina pessoas para fazer o público sonhar. Não me peça para ser eu o rapaz que vai contar como se dá este treinamento.

Posso dizer que é algo muito nosso. Meninas bonitas sorriem pra você, dançam contigo, limpam a testa com a leve camiseta e te mostram toda a barriga. E estão descalças, descabeladas e sem maquiagem. E foda-se.

É algo muito nosso. Todo nosso. A sintonia depende de todos. Um espirro muda o clima geral. Um braço cruzado é trágico. Os homens dançam, são gentis, soltam-se, alguns com shorts, camisetas regatas, músculos. E foda-se.

Hoje dançamos uma música do Grease. We Go Togheter. Entendeu? Hoje eu não estava tão tenso. Hoje deu pra decorar mais pessoas, mais comandos.

Deu pra deitar no intervalo e saborear o palco. Desligar. Dandrade veio me oferecer um refrigerante chamado H2O, que nunca tinha bebido. Perguntou se eu estava legal. Estava, Dandrade. Junto.

Outra coisa que posso dizer sem entregar as tecnicas de Deto e Candé, é que existe uma onda de respeito entre as pessoas, como que se todas soubessem o quão importante o outro, cujo nome, procedência e antecedentes criminais são desconhecidos, será em sua vida.

Tinha uma menina alta, que depois fui saber que se chama Nahomi, que olhei e pensei nisso. "Que diabos, quem é essa pessoa, e quem será essa pessoa em agosto?". A Adriana, cujo diálogo pela internet já havia sido maior, dava no mesmo placar: "Tá, sei sobre ela, mas o normal não seria eu ter a opção de não ter certeza que ela será importante no meu melhor ano?".

Viagens, apenas viagens. Acaba o treino, e vamos beber uma cerveja. Na outra semana tem carnaval, logo, não tem treino.

Cristian pulou de para-quedas com sua mãe. Lívia canta numa banda de meninos imaturos. Flávia tem uma tatuagem nas costas. Tadeu imita Silvio Santos e eu quebrei meu copo na mesa.

Não acharia nunca coisa diferente. A seleção do Noturno não deixaria isso ser possível. Mas sinto estar ao redor de pessoas numa linha de energia muito gostosa. Sem Limaduartismos. Sem eu-sou-fodismos. Não senti isso em ninguém. Hoje sinto muita dor nos punhos, pois num exercício passei 3 minutos marretando o palco. Foi libertador.

Outra vez volto pra casa na carona do engraçado Bruno. A figura tem um problema nas costas, e eu no joelho. Isso toma metade de nossos diálogos, ou lamentos.

A outra metade dos assuntos, claro, é secreta.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Não à toa, 1° de fevereiro

Fevereiro de 2005 havia sido a última vez.

Acabo de chegar em casa. Ando pra lá e pra cá. Minha mãe dorme. Eu não consigo dimensionar. Como não consegui explicar nada à mamãe nos 10 segundos em que ela con seguiu manter-se acordada.

Saí de casa e ainda era dia. Cheguei e a noite caía. Era o Noturno chegando. Desejei o fim do horário de verão.

Era engraçado olhar para as pessoas ao redor. Notei que algumas se conheciam, mais do que eu imaginava. Suspeitei ser o único a ir 100% sem conhecer ninguém àquele lugar. Ainda suspeito.

Procurei os olhos e os sorrisos e comparei com o que já tinha visto pelo orkut. Pouco me resolveu.

Era preciso fazer o que eu tinha que fazer. O que desde fevereiro de 2005 eu não fizera.

Era uma vez a universidade. O Leandro que bolou, escreveu, atuou e dirigiu um musical com 22 alunas de fisioterapia, mais 4 deficientes mentais.

Era uma vez o intuitivo Leandro que usou o Noturno como referência de danças, de luzes, de tudo. Lembrança quase de berço, afinal. Era uma vez o Leandro que deixava claro: "nada sei, não sou um diretor. Só tenho vontade. Se sua irmã estiver dando a luz e você não souber dirigir... você vai aprender a dirigir".

Eu precisava daquilo, naquela época.

Era uma vez uma das 22 alunas, cuja vida precisava de mim, e da peça, pra voltar à linha. Era uma vez fevereiro de 2005.

Peça feita, relativo sucesso, convites externos de apresentação. Perdemos nossa aluna mais difícil, mais trêmula, a que mais precisava do palco.

Não foi só luto. Foi descrença. Fevereiro de 2005, e eu deixei de acreditar que o palco seria um lugar onde deveria estar. Passei mais dois anos estudando mudo. Peguei o diploma de jornalista e fui embora.

Agora eu precisava encarar isso de novo. Pelo sonho da minha mãe. Que acabara de realizar meu sonho.

Por mim, pra satisfazer meu grito entalado.

Eu subi no palco e deixei que 5 arranhados anos de quietude se esvaissem em passos retangulares e nervosos.

5 anos, naqueles 15 minutos, foram recompensados.

5 anos, nas 3 horas que se seguiram, fizeram mais sentido. A energia de cada um, a alegria realizada contida em cada rosto, a sintonia, a vontade atenta de aprender em grupo, o privilégio coletivo.

Demorou 5 anos. Mas fevereiro de 2005 está acabando, na minha vida, nesta madrugada.

É o que já guardo de minhas dúzias de novos amigos. Muitas lágrimas virão. Muita saudade. Mas muita garra também. Estarei no palco por mim, por uma mãe na platéia, e por uma guría lá no céu.

Uma guría que dançava, comigo, na peça, a "dança do reencontro".

Eu vou te reencontrar. No palco, minha amiga.