terça-feira, 9 de março de 2010

8 de março: dia das mulheres, dia de estreia?

Alguém com mais capricho ou filosofia diria que estreei no Noturno nesta noite de março que se passou. Porque? Porque amanheci com a palma da mão roxa. Estapeei errado o tablado, não sei o que foi, antes só doía, mas, uma noite de sono depois, e tenho um roxo, um inchado, mal posso cerrar os punhos.

Cerrar os punhos. Não poder serrar os punhos é algo muito ruim para uma criatura da noite.

É que foi um transe. Fizemos uma cena no começo do treino em que a sintonia do grupo foi provada pelos gritos de todos no final da mesma. Coisa de maluco. Não lembro o que levou a cada coisa, mas lembro que fluiu, o som, a luz, a harmonia do grupo, dei cambalhota, desobedeci, viajei, machuquei a mão. Estreei?

Fui para o teatro ouvindo James Taylor no ouvido. Quando cheguei no metrô Ana Rosa, me dei conta que foi aquele o metrô que tomei quando, mais de uma dúzia de meses atrás, encerrei um equivocado noivado. Eu sou muito desatento às vezes. O teatro fica na rua da frente à que ela morava. Sei lá se ainda mora, mas é engraçado que o mesmo cenário sirva para duas atividades tão antagônicas.

Os passos que dou do metrô para o teatro são diferentes. É como sair do meio de campo para cobrar um pênalti importante (eu nunca perdi um pênalti na carreira, ok, perdi um mas fiz o gol no rebote, ok, mulheres ou quem não joga bola ou quem não bate pênalti, não vou atrás de outra metáfora). Excitação e ansiedade tomam conta. E você aguça os 5 sentidos, e o 6°, e o 7°. Fica focado, concentrado desde já. E até esquece que aquela farmácia de esquina já te forneceu curativos para um corte nas nádegas (isso é a mais pura verdade, ainda que me denigra).

Falando em concentração, ou em bater pênalti, hoje foi a primeira vez que testei a voz, a voz sozinha, a fala, a dicção, no palco, para ser ouvido pela plateia (reforma ortográfica: porque tirar o acento da platéia?). Eu me permiti deconcentrar-me e acho que me arrependo disso. Acho que ri e relaxei com a apresentação que antecedeu a do meu grupo, mas o fato é que não cuidei dos meus passos, meu ombro, notei um pouco de timidez com os braços, e a fala, o repertório, pagou o pato.

Concentração precisa ser tudo pra mim. Não só quando estou lá em cima. Notei que não assisti da maneira que deveria assistir aos outros grupos.

É importante ressaltar que mais uma vez acabei num grupo com só eu de homem. Mas eu era apenas um vendedor, dessa vez. No dia internacional da mulher, até que é legal notar isso. E lembrar que, em câmera lenta, fui golpeado com um soco e uma torta na cara, e não pude nem ficar bravo, posto que os atos vieram seguidos de enternecedores sorrisos. Feliz dia das mulheres.

Os boatos de uma festa, balada, churrasco, reunião ecumênica ou leitura coletiva de teses de doutorado já ganha mais força. Sinto cheiro de festa no ar. Deve ser bom não ter hora pra terminar uma reunião com essa moçada. A Maria Paula, que é a campeã portodegalinhense de cerveja-via-canudinho, batendo na final o Sêo Ubaldo, lenda viva da região, precisa não ter hora para parar de beber comigo. Opa, gancho perfeito: a cerveja pós-treino.

Não dá tempo de conversar largamente, de engatar a quinta, de desfrutar da companhia de todos. Logo chega a carona de um namorado, a aí pelo menos vemos uma virada de copo de cinema. Depois o metrô varre componentes da mesa. Mas eu não estou reclamando, não sou ranzinza. Tá, sou um pouco. Puta que pariu, esqueci de trazer embora a bolacha. Eu coleciono. Não inéditas, mas de quando bebo. Anoto dia e companhias. Disse isso na mesa. E esqueci a bolacha. Idiota.

Devo dizer que a casa me afetou. Ou, em casa, me afetei. Uma pipoca e uma Rita Lee depois de chegar, senti mais propriamente o impacto de tudo. O estrago que faz. Em mim é brutal. Eu conto abertamente, quando é o caso de contar, o porque de estar alí e o que me antecede. Não é lá muito administrável. Cicatrizes, saudades, levo tudo pro palco, é uma missão.

Tem um desabafo aqui na garganta. Todo mundo é um pouco de desabafo contido, esperando sua hora de sair. Estar na posição de criatura da noite, assusta. Intenção e gesto se equalizam. Potencializa uma coisa selvagem. Quando decidi cancelar, anos atrás, meu relacionamento com os palcos, acabei adiando muita coisa pela vida. Todos adiamos. E não pode sair tudo de uma vez. Senão dá cegueira. E já basta a escuridão.

Quem pega o bife menor na mesa, um dia vai querer o maior. A renúncia é também espera. A bondade também espera recompensa. De alguma forma, isso me explica lá no treino. Eu larguei os palcos em 2005, optei por um teatro sem cortinas, solitário. Uma opção de renúncia, mas de espera. Que chegou à sua hora. Hora de ter um espaço, de aumentar-se, de projetar-se, num corpo de 40 pares de braços. Um teatro com cortinas, num grupo.

Isso não é só curtição. Tem um baita peso humano.

* * *

Na noite de ontem recebi as primeiras impressões sobre o nosso blog. Show. Mesmo. Tenho certeza que vou sorrir bastante quando começarem, todos, a escrever também. Vocês sabem como postar aqui, no orkut tá explicado e se não tem ou não viu ou não sabe, pergunte-me como. é parede para todos nós pintarmos. Eu escrevo, é minha profissão, minha compulsão, mas adoro ler também. Portanto, aguardo os escritos das criaturas.


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