Querido Jean,
Eu sei que você escreveu seguidos erres e esses no computador de minha prima. Imagino que riu de verdade, gargalhando na poltrona amarela na manhã de Paris. Sempre que penso em você em Paris, penso que é manhã. Não sei porquê.
Mas o que ela falou é sim verdade. Esses 190 centímetros magrelos estão dançando e cantando. O zagueiro estabanado e chafurdante que tu conheceu tão bem agora deixa a espinha ereta em cima de um palco.
Sabe, Jean, foram tantas idas e vindas que eu nem sei mais. Hoje, no treino de hoje, por exemplo, eu vesti uma camisa do Santos. Tá, pode rir de novo - gosto do seu riso, amigo -, mas o fato é que aquele palmeirense intransigente que eu era, hoje é mais relativo. Mais razoável. Eu mudei. Apenas mudei. E quem não mudou?
O estranho é que a vida me fez mais sério, mais velho, mais triste. Um pouco mais sozinho do que já era. Com menos orações e menos planos. Mais simples. E fazer teatro, Jean, vai na contramão do que eu digo de mim. Eu sempre fui contraditório, mas não é essa a questão. Não é contradição. A mesma vida que me fez tanta coisa é também a responsável por isso. É tudo um plano mestre, um organismo que não se enxerga, e você sabe disso melhor que eu.
Por aqui, Jean, tenho descoberto poucas coisas. No palco, descubro - e invento - a todo segundo. Tem negra, branca, loira, morena, homem, mulher, heterossexual, gay, alto, baixo, cristão, judeu, tudo tem. Tem olhares. Novos, velhos, experientes, imaturos, casados, solteiros. Lembro quando você viu uma amora na prateleira do mercado. Tudo perde magia quando sai de uma árvore e chega numa prateleira.
Estou indo buscar pessoas na árvore, e não no mercado. Pessoas que se permitam, deixem o ridículo, não se vistam de pragmáticas urbanóides, que se concentrem e não fiquem acanhadas caso trombem nas minhas costas ou pisem em minhas horrendas unhas. Estou rodeado de gente talentosa e que sorri pra mim, e que espera algo de mim, que quer ir em frente comigo do lado. Gente que compõe o organismo que eu enxergo.
Já entendi muita coisa desde quando você foi embora pra Paris. A importância de alguém que te estimule a pentear os cabelos, os signos mentirosos por trás de cada coisa retumbante que sentimos, o quão fundamental é silenciar, respirar. Entendi a verdade de minha mãe, o caos da minha cidade, a sutil diferença que separa aquilo que dá certo daquilo que dá errado.
A mim, eu continuava não entendendo. Queria te dizer que quando estou no palco, eu me permito sonhar. E do meu sonho eu entendo. O sonho é um caminho válido. Lúdico e bem-loucão, mas válido, para se chegar á realidade. Não é um atalho, pode até demorar mais. Mas é mais legal.
Resumindo, caro Jean, espero que seu amigo aqui tenha uma semana de sua companhia no 2° semestre, e que você me veja, no palco, e que gargalhemos juntos. Te apresento meus novos amigos, você me mostra suas fotos, eu te faço aquela batida que gosta, e você me abraça como o bom amigo que é.
No treino de hoje, o diretor pediu para, em câmera lenta, eu traduzir em gestos a saudade. E eu te abracei, abracei o seu vento. Acho que isso resume muita coisa que eu poderia te contar sobre eu estar fazendo teatro, 5 anos depois.
Espero que tenha sentido meu abraço.
Au revoir,
Leandro Iamin
segunda-feira, 22 de março de 2010
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