de Leandro Iamin
Era uma vez uma criança que chorava. Adultos comovidos e entretidos perguntavam à ela o porque das lágrimas, já que não tinha nada na sala além do avô tocando violão. "É que é bonito", disse a criança. E você chora com o que é bonito? "É que não cabe nos olhos".
Humilde preâmbulo para citar o humilde blog. Não cabe. Algumas emoções não cabem num blog. Transbordam pela caixa de entrada, invadem outras telas, se derramam pelo teclado.
Peguei o metrô em estado catatônico. O metrô quebrou na estação onde descia no meu primeiro emprego. Com o meu primeiro salário, na época, eu comprei o agasalho verde e duradouro que estava vestindo. Umas estações mais tarde, o filho da minha primeira patroa entrou no trem.
Claro que não achei um simples acaso. Meu primeiro emprego formou parte de meu caráter. Caráter que sempre está em formação. Seria divertido que entre o teatro e minha casa aparecessem outros elementos desses. Não apareceram.
Eu poderia dizer aqui em detalhes o que senti com cada um que fez cada cena. Mas não caberia. Caberiam nas letras, mas as letras são para o sentimento como os olhos são para a lágrima. Transborda, sucumbe, se rende.
Atrás dos números eu vi pessoas. Nos seus jeitos, formando um pouco mais dos seus caráteres. Cada um com seu ritual e sua reação à ansiedade. Ninguém foge de ser o que é nessas horas intensas da vida.
Pra não falar que não convidei ninguém, eu convidei minha mãe. Mas eu sabia que ela não teria como ir. O vitrine tinha para mim um aspecto particular de reencontro com o público de fato. Nada muito diferente de nenhum de nós, seja encontro ou reencontro. Só que eu acho que preferia um público sem identidade, sem nomes, sem endereço conhecido. Igualzinho um membro do Noturno deve ser no palco. Pelo menos dessa vez.
Uma parte da engrenagem que me move é uma mágoa, uma derrota. Passei 2009 indo à academia em busca de condicionamento físico. Em 2010, minha busca é pelo condicionamento artístico. Fazem 5 anos que procuro condicionamento espiritual. Algo que junte, solde dois pedaços de mim e transforme numa história só. Noturno me parece ser isso para mim.
E para cada um de nós, ele tem sua representatividade, sua explicação, que não há de caber em palavras.
Eu estava lá, naquele meu primeiro emprego, trabalhando, quando Ana Paula morreu. Eu usei o nome dela esse tempo todo para justificar a minha própria escolha por não fazer teatro. Cinco anos. Onde eu estarei daqui cinco anos. Quais serão meus próximos medos.
Este está superado. Não sem lágrimas e hesitações. Mas sem nenhum minuto de ausência. E Ana Paula, a quem o palco era tão necessário, a quem a amizade muito me custava, ocupava uma daquelas cadeiras vazias. Ou lotadas. Cada um de nós tínhamos convidados só nossos.
E eu preciso agradecer ao que me forma o caráter, pedaço por pedaço. De cabo a rabo das experiências, de A a Z. Enumerar as vezes que me arrepiei e/ou perdi o chão na noite que acabou agora seria individualizar uma sensação conjunta de paz, e perder o "junto filosofal" que se formou aqui dentro. E simplesmente não caberia no blog.
Baixei a guarda para outras chicotadas psicológicas que vieram em minha direção. O primeiro exercício com canção do Noturno; O Menestrel de Shakespeare; Metade, de Oswaldo Montenegro; entregar o palco para um parceiro, dar a deixa; alguns gestos e olhares "familiares" perdidos pela noite. Tudo isso atingiu meus olhos. Não coube neles. Como não cabe no peito de ninguém tanta coisa e mais coisa que nos forma, desde lá de trás.
Noturno é uma destas coisas. Lembro de uma criança arrepiada. E não entendia muito bem o porque. Só sabia que era bonito. De um lado a mãe, do outro a tia, as duas emocionadas. Buscou razão para estar alí. E assistiu Noturno pela primeira vez na vida.
Não sei se o Noturno é um dos culpados por eu crescer insone. Se minha parte boêmia tem influência dele. Se suas músicas da peça que tanto tocaram em casa sedimentaram meu gosto musical. Se o meu lado sentimental tem contribuição notúrnica. Não sei. Seja como for, eu tive o Noturno quando criança, e o tenho agora adulto. E me considero um cara de muita, muita sorte.
segunda-feira, 31 de maio de 2010
sexta-feira, 21 de maio de 2010
o coletivo
de Leandro Iamin
Algumas coisas que antes não faziam parte de nossa rotina nos treinos, agora começam a fazer. Logo aqui embaixo a Maps definiu bem toda a alquimia que é quando somamos nosso conhecimento adquirido ao nosso sentimento aflorado.
Agoras os exercícios saem. A memória nem percebeu o quanto já decorou e o quanto consegue se virar no caso de ter esquecido de algo ou de precisar criar sem mostrar que criou. Condicionamento artístico talvez seja a palavra. Coração atento, olhos ligados num corpo de 40 braços e 40 pernas. Treino é treino, estudo é estudo, e eu adoro isso. Sempre adorei a escola, nunca fui CDF com livros e provas, mas amava ouvir e interagir com os professores formais e informais que passaram por mim.
Porque sempre vi resultado. Sempre que estudei algo, transformei alguns aspectos de mim. Sempre que treinei, consegui melhorias. Em tudo. O resultado aparece e é proporcional, não tem jeito. Não é injusto como futebol ou ilógico como amor. O que você treina e estuda, você colhe da forma prevista.
Falta um treino de atividades "comuns", mais um vitrine, e aí enfim os papeis e as minúcias da peça em si nos ocuparão. Seis horinhas de primeiro módulo. Acho que o que tínhamos para estudar e treinar, para aprender com a proposta do módulo, já foi feito. E eu olho para frente, e fico admirado. Por petensioso que pareça, acho que consigo enxergar a evolução individual nossa. Mas jogo ela fora, dou um foda-se e puxo a descarga, claro. Pois o ensinamento conceitual de todo o módulo estava na evolução coletiva. E esta evolução é muito, mas muito mais visível.
De minha parte individual, superei sem apertos a rasgura que o reencontro com o palco poderia causar na minha saudade de uma amiga. Coletivamente, nem tenho o que falar. Coletivamente eu nada falo, pois coletivamente eu tenho 40 bocas.
Só que vou me permitir usar umas lembranças de coisas particulares, e dize-las aqui. Com licença.
Mari. O seu choro fez o coletivo chorar também. Alguns de nós choraram com as lágrimas e tudo. Alguns você viu, alguns não. Mas o seu choro nos lembrou de algo que já sabiamos que não se poderia evitar: perderemos peças. Alguns de nós haverá de sair, como já saiu. Só que tem o seguinte: nós estamos na metade da história. O fato de você não participar da segunda metade não te tira da primeira, não te zera dentro da equipe, não te torna parte excluída. Aquilo que vai ser apresentado em outubro tem, irremediavelmente, o seu toque e o seu sentimento misturado com o nosso.
Lembro ainda que muitas coisas, na verdade a maioria das coisas que sonhamos em fazer na vida, acabam antes mesmo de começar. Interromper algo na metade não deixa de ser uma vitória.
Tadeu é um moço de marca muito forte. Eu chamaria Tadeu de mijo de gato. Onde o gato mija, não há quem consiga tirar o cheiro. É assim quando Tadeu participa de uma cena. Ele possui um presença marcante. Só que isso parece estar causando uma perturbação ao nosso menestrel das tranças longas.
Ele escreveu aqui semana passada, mas preferiu ocultar o texto. Fez essa opção, e eu estou desfazendo-a de alguma forma. Tadeu tem uma legítima preocupação com a leitura externa de sua faceta bem-humorada o tornar estereotipado. É aquela coisa de todos rirem quando um comediante faz uma cena dramática ou faz um comentário serio.
Tadeu não é comediante, e nem esse problema é dele. Acho que isso pode virar uma imperfeição do coletivo, isso é, subestimar algum olhar para ele, impedir indiretamente que outras facetas dele desenvolvam-se. O exemplo é do Tadeu, mas pode acontecer com todos nós.
No fim da nossa multi-apresentação da última segunda, corremos para a plateia depois da última cena. Após cumprir todo o extenso roteiro, eu estava cego. Eu ceguei mesmo, lembro que berrava e lembro que estava em transe. E lembro que no fundo da plateia encontrei o Tadeu, e aparentava entusiasmo semelhante. Lembro que dei um abraço nele, de fração de segundo. E fiquei feliz de encontra-lo num momento desprovido de qualquer graça, e munido de potência emocional, coisa que sobra no grupo, e nele também.
Acho que já escrevi demais para o meu tamanho. Vale dizer que Chris Spong, entre alguns outros bonitos textos citados nos exercícios de luz com o Deto, falou carregado de emoção um trecho de O Menestrel, texto de Shakespeare, que eu considero uma das coisas mais bonitas que já li. E veja, vocês, no youtube achei o texto citado, e vejam vocês, está aqui embaixo.
Algumas coisas que antes não faziam parte de nossa rotina nos treinos, agora começam a fazer. Logo aqui embaixo a Maps definiu bem toda a alquimia que é quando somamos nosso conhecimento adquirido ao nosso sentimento aflorado.
Agoras os exercícios saem. A memória nem percebeu o quanto já decorou e o quanto consegue se virar no caso de ter esquecido de algo ou de precisar criar sem mostrar que criou. Condicionamento artístico talvez seja a palavra. Coração atento, olhos ligados num corpo de 40 braços e 40 pernas. Treino é treino, estudo é estudo, e eu adoro isso. Sempre adorei a escola, nunca fui CDF com livros e provas, mas amava ouvir e interagir com os professores formais e informais que passaram por mim.
Porque sempre vi resultado. Sempre que estudei algo, transformei alguns aspectos de mim. Sempre que treinei, consegui melhorias. Em tudo. O resultado aparece e é proporcional, não tem jeito. Não é injusto como futebol ou ilógico como amor. O que você treina e estuda, você colhe da forma prevista.
Falta um treino de atividades "comuns", mais um vitrine, e aí enfim os papeis e as minúcias da peça em si nos ocuparão. Seis horinhas de primeiro módulo. Acho que o que tínhamos para estudar e treinar, para aprender com a proposta do módulo, já foi feito. E eu olho para frente, e fico admirado. Por petensioso que pareça, acho que consigo enxergar a evolução individual nossa. Mas jogo ela fora, dou um foda-se e puxo a descarga, claro. Pois o ensinamento conceitual de todo o módulo estava na evolução coletiva. E esta evolução é muito, mas muito mais visível.
De minha parte individual, superei sem apertos a rasgura que o reencontro com o palco poderia causar na minha saudade de uma amiga. Coletivamente, nem tenho o que falar. Coletivamente eu nada falo, pois coletivamente eu tenho 40 bocas.
Só que vou me permitir usar umas lembranças de coisas particulares, e dize-las aqui. Com licença.
Mari. O seu choro fez o coletivo chorar também. Alguns de nós choraram com as lágrimas e tudo. Alguns você viu, alguns não. Mas o seu choro nos lembrou de algo que já sabiamos que não se poderia evitar: perderemos peças. Alguns de nós haverá de sair, como já saiu. Só que tem o seguinte: nós estamos na metade da história. O fato de você não participar da segunda metade não te tira da primeira, não te zera dentro da equipe, não te torna parte excluída. Aquilo que vai ser apresentado em outubro tem, irremediavelmente, o seu toque e o seu sentimento misturado com o nosso.
Lembro ainda que muitas coisas, na verdade a maioria das coisas que sonhamos em fazer na vida, acabam antes mesmo de começar. Interromper algo na metade não deixa de ser uma vitória.
Tadeu é um moço de marca muito forte. Eu chamaria Tadeu de mijo de gato. Onde o gato mija, não há quem consiga tirar o cheiro. É assim quando Tadeu participa de uma cena. Ele possui um presença marcante. Só que isso parece estar causando uma perturbação ao nosso menestrel das tranças longas.
Ele escreveu aqui semana passada, mas preferiu ocultar o texto. Fez essa opção, e eu estou desfazendo-a de alguma forma. Tadeu tem uma legítima preocupação com a leitura externa de sua faceta bem-humorada o tornar estereotipado. É aquela coisa de todos rirem quando um comediante faz uma cena dramática ou faz um comentário serio.
Tadeu não é comediante, e nem esse problema é dele. Acho que isso pode virar uma imperfeição do coletivo, isso é, subestimar algum olhar para ele, impedir indiretamente que outras facetas dele desenvolvam-se. O exemplo é do Tadeu, mas pode acontecer com todos nós.
No fim da nossa multi-apresentação da última segunda, corremos para a plateia depois da última cena. Após cumprir todo o extenso roteiro, eu estava cego. Eu ceguei mesmo, lembro que berrava e lembro que estava em transe. E lembro que no fundo da plateia encontrei o Tadeu, e aparentava entusiasmo semelhante. Lembro que dei um abraço nele, de fração de segundo. E fiquei feliz de encontra-lo num momento desprovido de qualquer graça, e munido de potência emocional, coisa que sobra no grupo, e nele também.
Acho que já escrevi demais para o meu tamanho. Vale dizer que Chris Spong, entre alguns outros bonitos textos citados nos exercícios de luz com o Deto, falou carregado de emoção um trecho de O Menestrel, texto de Shakespeare, que eu considero uma das coisas mais bonitas que já li. E veja, vocês, no youtube achei o texto citado, e vejam vocês, está aqui embaixo.
terça-feira, 18 de maio de 2010
Atenção aos Detalhes
Ontem foi uma noite e tanto.
Ontem foi o início do fim do início para então iniciarmos a parte que termina no fim - tô te essshhhhxxxxplicando bem?
Ao sentar no bar ali da galeria, com os mesmos de sempre, notamos um fato que definitivamente muda todo o contexto da aula que, para alguns, foi normal, como todas as outras.
Quando que, em algum momento nos dois primeiros meses de curso, imaginaríamos que podíamos ir tão longe? A atenção aos detalhes que eu peço é: o Candé nos passou um roteiro que há 2 meses atrás era simplestente impossível de cumprir.
Não porque não teríamos capacidade de executar. Acho que essa capacidade já existe desde o dia que nascemos.
Mas o tal "espírito da coletividade", o junto, a ajuda, a cooperação, o respeito... isso não era parte do nosso roteiro até então. Isso todos nós construímos, ao longo desses quatro meses, uma cumplicidade como grupo sem perceber as mudanças sutis que transformaram o que era pra ser um exercício "difícil" em um exercício emocionante.
Nos conhecemos mais do imaginamos. Sabemos de talentos que as pessoas de fora talvez nunca vão conhecer. Ao entrar no Dias Gomes às segundas-feiras podemos incorporar alter-egos, sonhos e válvulas de escape que não são factíveis na vida real. Ali, mostramos um lado que às vezes nem a família, nem os amigos, nem os namorados, maridos, ficantes, rolos e adendos sabem. E que prazer que é poder contar com pessoas que, apesar de não saberem detalhes da minha vida, sabem alguns detalhes da minha alma.
Já existe um clima de término do jardim-de-infância e início da nossa vida adulta, parafraseando o Detão. E que venha essa vida adulta! Que venham as responsabilidades, os problemas, as superações. Temos que encarar os puxões de orelha como se fosse Outubro. Temos que perceber que se não nos dedicarmos 120% com seriedade, precisão e atenção aos desafios, são 40 pessoas que vamos envolver. Agora é fato: vamos começar o Noturno.
Ontem vi duas grandes figuras tristes por não poderem mais participar na segunda fase. No término do exercício, chorei junto. Quando a gente vira árvore, dói quando perdemos uma folha.
Atenção aos detalhes - ontem provamos que estamos preparados. O Noturno está latente, ali, chamando, só falta abrir a porta.
Criaturas da noite: não tenhamos mais medo de vê-las. Chegou a hora de mostrar por que chegamos até aqui.
Por causa da nossa união.
Grande beijo,
Maps
Ontem foi o início do fim do início para então iniciarmos a parte que termina no fim - tô te essshhhhxxxxplicando bem?
Ao sentar no bar ali da galeria, com os mesmos de sempre, notamos um fato que definitivamente muda todo o contexto da aula que, para alguns, foi normal, como todas as outras.
Quando que, em algum momento nos dois primeiros meses de curso, imaginaríamos que podíamos ir tão longe? A atenção aos detalhes que eu peço é: o Candé nos passou um roteiro que há 2 meses atrás era simplestente impossível de cumprir.
Não porque não teríamos capacidade de executar. Acho que essa capacidade já existe desde o dia que nascemos.
Mas o tal "espírito da coletividade", o junto, a ajuda, a cooperação, o respeito... isso não era parte do nosso roteiro até então. Isso todos nós construímos, ao longo desses quatro meses, uma cumplicidade como grupo sem perceber as mudanças sutis que transformaram o que era pra ser um exercício "difícil" em um exercício emocionante.
Nos conhecemos mais do imaginamos. Sabemos de talentos que as pessoas de fora talvez nunca vão conhecer. Ao entrar no Dias Gomes às segundas-feiras podemos incorporar alter-egos, sonhos e válvulas de escape que não são factíveis na vida real. Ali, mostramos um lado que às vezes nem a família, nem os amigos, nem os namorados, maridos, ficantes, rolos e adendos sabem. E que prazer que é poder contar com pessoas que, apesar de não saberem detalhes da minha vida, sabem alguns detalhes da minha alma.
Já existe um clima de término do jardim-de-infância e início da nossa vida adulta, parafraseando o Detão. E que venha essa vida adulta! Que venham as responsabilidades, os problemas, as superações. Temos que encarar os puxões de orelha como se fosse Outubro. Temos que perceber que se não nos dedicarmos 120% com seriedade, precisão e atenção aos desafios, são 40 pessoas que vamos envolver. Agora é fato: vamos começar o Noturno.
Ontem vi duas grandes figuras tristes por não poderem mais participar na segunda fase. No término do exercício, chorei junto. Quando a gente vira árvore, dói quando perdemos uma folha.
Atenção aos detalhes - ontem provamos que estamos preparados. O Noturno está latente, ali, chamando, só falta abrir a porta.
Criaturas da noite: não tenhamos mais medo de vê-las. Chegou a hora de mostrar por que chegamos até aqui.
Por causa da nossa união.
Grande beijo,
Maps
quarta-feira, 12 de maio de 2010
Crescendo
Verinha me emocionou.
Eu queria começar o texto já falando disso, ou do porque disso.
Tive uma única experiência com a dopagem premeditada, com a violência deliberada através de drogas quaisquer. Que familiares não descubram este blog.
Estava hospedado num famoso hotel, sozinho, à trabalho. E não saí daquele gigantesco quarto igual entrei. Saí derrotado e não tenho orgulho disso. Acabara de ser cruel comigo mesmo, encerrado uma fase importante da vida, e desci às ruas do centro da cidade, desesperado, querendo qualquer idiotice que me violentasse, me tirasse grana do bolso e causasse preocupação de alguém.
A decadência é mais decadente quando é pobre e causa dó.
Achei uma idiotice qualquer e usei. E me senti frágil, chorão, de atos efêmeros e bobos como os de uma criança. E só me confundi, misturava certeza e arrependimento, critica e elogio, amor e ódio.
A verinha me emocionou com aquela espera por um namorado que não viria. Dopada mas contida, com raiva mas exaltando o desleal parceiro. Contradizendo os gestos e as palavras a todo segundo. Conflito. O conflito que te põe contra ti mesmo, se agredindo, se absolvendo, se justificando pra ninguém.
Quem nunca foi decadente uma vez na vida, simplesmente não nasceu.
E aí eu busco alguma explicação metafórica para absorver. "Exercício deprê", disse Deto Salaminho. Não sei, talvez não. Depressivo é o vazio. Deprê mesmo é negligenciar a própria derrota, pois ela educa e você tem que aceita-la para aprender.
Quando me perguntam sobre que cena quero fazer no Noturno, digo que prefiro sempre algo mais dramático do que engraçado. Um pouco porque flerto com esse raciocínio, de que sou mais humano quando estou mais perto do abismo.
O exercício não foi deprê. Nos adicionou elementos a mais, apenas isso. Um elemento que talvez nos faltasse, de interpretar, mesmo que de maneira descontraída, um sentimento de perturbação, indesejável, que nos fez buscar algum signo desagradável que conhecemos.
A Verinha me emocionou porque representou a maturidade que todos nós devemos ter - e eu acho que temos ou estamos a caminho de ter - para cuidar de cenas densas, seja foto, seja dança, seja o que foi.
Definitivamente, quanto mais humano e engasgado é um personagem, mais ele me conquista.
* * *
Noturno vai chegando perto da metade. Perto da segunda metade. Perto de ser marcado, decorado, acertado, definido, alinhado. Como uma vida humana, em que infância e juventude, primeira metade, tudo pode, mas a maturidade é certinha e precavida.
Atos efêmeros e bobos como os de uma criança a gente faz quando está crescendo. Noturno, com o coração, a gente só faz quando já cresceu.
Eu já não sou mais aquele que entrou.
Porque não são só as más experiências que nos transformam.
Com vocês, quero algumas más experiências encenadas.
E todas as boas experiências possíveis, estas não encenadas.
Eu queria começar o texto já falando disso, ou do porque disso.
Tive uma única experiência com a dopagem premeditada, com a violência deliberada através de drogas quaisquer. Que familiares não descubram este blog.
Estava hospedado num famoso hotel, sozinho, à trabalho. E não saí daquele gigantesco quarto igual entrei. Saí derrotado e não tenho orgulho disso. Acabara de ser cruel comigo mesmo, encerrado uma fase importante da vida, e desci às ruas do centro da cidade, desesperado, querendo qualquer idiotice que me violentasse, me tirasse grana do bolso e causasse preocupação de alguém.
A decadência é mais decadente quando é pobre e causa dó.
Achei uma idiotice qualquer e usei. E me senti frágil, chorão, de atos efêmeros e bobos como os de uma criança. E só me confundi, misturava certeza e arrependimento, critica e elogio, amor e ódio.
A verinha me emocionou com aquela espera por um namorado que não viria. Dopada mas contida, com raiva mas exaltando o desleal parceiro. Contradizendo os gestos e as palavras a todo segundo. Conflito. O conflito que te põe contra ti mesmo, se agredindo, se absolvendo, se justificando pra ninguém.
Quem nunca foi decadente uma vez na vida, simplesmente não nasceu.
E aí eu busco alguma explicação metafórica para absorver. "Exercício deprê", disse Deto Salaminho. Não sei, talvez não. Depressivo é o vazio. Deprê mesmo é negligenciar a própria derrota, pois ela educa e você tem que aceita-la para aprender.
Quando me perguntam sobre que cena quero fazer no Noturno, digo que prefiro sempre algo mais dramático do que engraçado. Um pouco porque flerto com esse raciocínio, de que sou mais humano quando estou mais perto do abismo.
O exercício não foi deprê. Nos adicionou elementos a mais, apenas isso. Um elemento que talvez nos faltasse, de interpretar, mesmo que de maneira descontraída, um sentimento de perturbação, indesejável, que nos fez buscar algum signo desagradável que conhecemos.
A Verinha me emocionou porque representou a maturidade que todos nós devemos ter - e eu acho que temos ou estamos a caminho de ter - para cuidar de cenas densas, seja foto, seja dança, seja o que foi.
Definitivamente, quanto mais humano e engasgado é um personagem, mais ele me conquista.
* * *
Noturno vai chegando perto da metade. Perto da segunda metade. Perto de ser marcado, decorado, acertado, definido, alinhado. Como uma vida humana, em que infância e juventude, primeira metade, tudo pode, mas a maturidade é certinha e precavida.
Atos efêmeros e bobos como os de uma criança a gente faz quando está crescendo. Noturno, com o coração, a gente só faz quando já cresceu.
Eu já não sou mais aquele que entrou.
Porque não são só as más experiências que nos transformam.
Com vocês, quero algumas más experiências encenadas.
E todas as boas experiências possíveis, estas não encenadas.
terça-feira, 11 de maio de 2010
Segunda-feira
Só sei que ao fim de cada segunda-feira eu não vejo a hora de que chegue logo a próxima segunda-feira.
E que, por mim, todos os dias podiam ser segundas-feiras e todas as horas entre 20h e 23h dessas segundas-feiras poderiam durar 24 horas. E que em todas elas poderia ser noite, sem sombra no chão. Com sombra no pano, no palco.
E sei também que o melhor de tudo é que mais 40 pessoas sentem igual a mim. Junto. Comigo.
E que é lá que todas elas deixam pra traz qualquer outra preocupação, chateação, dúvida, culpa, falta, solidão, descontentamento, medo.
É inexplicável, imensurável, infinito, imenso, intenso. É paixão, humor, união, sonho, emoção. É calor, energia, suor, crença, força.
É bom. Demais.
Postado por Lívia Nolla
E que, por mim, todos os dias podiam ser segundas-feiras e todas as horas entre 20h e 23h dessas segundas-feiras poderiam durar 24 horas. E que em todas elas poderia ser noite, sem sombra no chão. Com sombra no pano, no palco.
E sei também que o melhor de tudo é que mais 40 pessoas sentem igual a mim. Junto. Comigo.
E que é lá que todas elas deixam pra traz qualquer outra preocupação, chateação, dúvida, culpa, falta, solidão, descontentamento, medo.
É inexplicável, imensurável, infinito, imenso, intenso. É paixão, humor, união, sonho, emoção. É calor, energia, suor, crença, força.
É bom. Demais.
Postado por Lívia Nolla
segunda-feira, 3 de maio de 2010
Noturno x Noturno. Vencedor: Noturno
de Leandro Iamin
Basicamente, minha vida atual se resume ao Noturno e ao meu time de várzea. Não me venham falar do trabalho. No trabalho eu apenas trabalho. O resto do tempo eu uso descaradamente para me reservar a maior ociosidade possível.
Convite de amigos são aceitos, saídas moderadas, consultas médicas e uns planinhos postos no papel, contas, filmes, organizar, leituras, o que for. Nada obrigado, tudo só se eu quiser.
De compromisso real, firmado, juramentado, daquele que sei hoje onde estarei daqui 3 meses, é só isso: Noturno e meu time de várzea.
Não acho que sejam poucas atividades. Me bastam como nunca nem 5 atividades simultâneas bastavam. Amo o time que jogo mais que o Palmeiras. No teatro encontro minha melhor versão possível. Saio sempre feliz das duas atividades, a ponto de não me culpar caso negligencie o resto de minhas horas acordado, ou mesmo dormindo, de folga, ou mesmo trabalhando.
Por vezes, uma atividade entra no espaço da outra. Sábado eu deveria ter ido com a moçada ver a peça UP, mas o futebol me impediu. Da mesma forma, hoje no teatro deixei minha coxa inchada numa pancada como raramente recebo num campo.
Sábado foi um dia chato para mim. Aspectos de uma versão derrotada de mim vieram à tona quando um sonho de ser campeão virou desilusão. Fiquei dentro do vestiário por uma hora, conversando com o dono do time, meu melhor amigo. Falamos sobre coisas da vida, do time, da vida-e-do-time, o que afinal representava fazer tudo aquilo. Ganhar não deveria ser o objetivo principal. E não é.
Fui para o teatro pronto para esquecer isso de ganhar e perder. Tenho problemas com isso. O Candé fez uma "olimpíada", com notas e tudo, e isso me perturbou. Queria tirar do palco uma boa metáfora para levar ao vestiário.
E tirei. Hoje foi o dia que mais me senti participativo, e, no entanto, fiquei, ativo, no palco, por no máximo 5 minutos. Mais assistimos do que fizemos, e não participamos menos por isto.
Foi noite de ver as soluções que os outros encontram, a seu favor, a favor do grupo. Ver o talento deles. Talento sem adversário, sem resistência vestindo outra cor. Se por um lado a vida nos ensina que nem sempre quem faz melhor é quem se dá melhor, por outro nossos companheiros provam que a arte não joga contra ninguém, e é por si só vencedora.
Daí me vem Cíntia e seu fofuxo "tíruríru riru riru", Tadeu com o domínio de sempre, o expressivo Cristian e sua implacável estatura-envergadura fazendo o fresquinho pintor francês, Lívia e Priscila num dueto nota de fato 10.8, as fotos de Chris e Carina, a nerd bonitinha e legalzinha da Paty, Sophia Guadalupe e seu delay, a aflitiva drogada que se tornou Deby Polaca, a confusa senhorinha Rackel, e mais essa, e aquela, e aquela outra, e sério: não tenho a conta de quantos personagens excelentes pisaram naquele palco desta vez. Não teve exceção, todo mundo deu passos à frente ao treinar por hoje.
O que seria um presente e me faria dormir feliz.
Mas aí a irmã do dono do meu time de várzea, o meu melhor amigo, sofre um aneurisma com 24 anos e tudo que eu penso que sei e aprendi sobre qualquer coisa muda de figura. E eu paro de escrever.
Basicamente, minha vida atual se resume ao Noturno e ao meu time de várzea. Não me venham falar do trabalho. No trabalho eu apenas trabalho. O resto do tempo eu uso descaradamente para me reservar a maior ociosidade possível.
Convite de amigos são aceitos, saídas moderadas, consultas médicas e uns planinhos postos no papel, contas, filmes, organizar, leituras, o que for. Nada obrigado, tudo só se eu quiser.
De compromisso real, firmado, juramentado, daquele que sei hoje onde estarei daqui 3 meses, é só isso: Noturno e meu time de várzea.
Não acho que sejam poucas atividades. Me bastam como nunca nem 5 atividades simultâneas bastavam. Amo o time que jogo mais que o Palmeiras. No teatro encontro minha melhor versão possível. Saio sempre feliz das duas atividades, a ponto de não me culpar caso negligencie o resto de minhas horas acordado, ou mesmo dormindo, de folga, ou mesmo trabalhando.
Por vezes, uma atividade entra no espaço da outra. Sábado eu deveria ter ido com a moçada ver a peça UP, mas o futebol me impediu. Da mesma forma, hoje no teatro deixei minha coxa inchada numa pancada como raramente recebo num campo.
Sábado foi um dia chato para mim. Aspectos de uma versão derrotada de mim vieram à tona quando um sonho de ser campeão virou desilusão. Fiquei dentro do vestiário por uma hora, conversando com o dono do time, meu melhor amigo. Falamos sobre coisas da vida, do time, da vida-e-do-time, o que afinal representava fazer tudo aquilo. Ganhar não deveria ser o objetivo principal. E não é.
Fui para o teatro pronto para esquecer isso de ganhar e perder. Tenho problemas com isso. O Candé fez uma "olimpíada", com notas e tudo, e isso me perturbou. Queria tirar do palco uma boa metáfora para levar ao vestiário.
E tirei. Hoje foi o dia que mais me senti participativo, e, no entanto, fiquei, ativo, no palco, por no máximo 5 minutos. Mais assistimos do que fizemos, e não participamos menos por isto.
Foi noite de ver as soluções que os outros encontram, a seu favor, a favor do grupo. Ver o talento deles. Talento sem adversário, sem resistência vestindo outra cor. Se por um lado a vida nos ensina que nem sempre quem faz melhor é quem se dá melhor, por outro nossos companheiros provam que a arte não joga contra ninguém, e é por si só vencedora.
Daí me vem Cíntia e seu fofuxo "tíruríru riru riru", Tadeu com o domínio de sempre, o expressivo Cristian e sua implacável estatura-envergadura fazendo o fresquinho pintor francês, Lívia e Priscila num dueto nota de fato 10.8, as fotos de Chris e Carina, a nerd bonitinha e legalzinha da Paty, Sophia Guadalupe e seu delay, a aflitiva drogada que se tornou Deby Polaca, a confusa senhorinha Rackel, e mais essa, e aquela, e aquela outra, e sério: não tenho a conta de quantos personagens excelentes pisaram naquele palco desta vez. Não teve exceção, todo mundo deu passos à frente ao treinar por hoje.
O que seria um presente e me faria dormir feliz.
Mas aí a irmã do dono do meu time de várzea, o meu melhor amigo, sofre um aneurisma com 24 anos e tudo que eu penso que sei e aprendi sobre qualquer coisa muda de figura. E eu paro de escrever.
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