de Leandro Iamin
Era uma vez uma criança que chorava. Adultos comovidos e entretidos perguntavam à ela o porque das lágrimas, já que não tinha nada na sala além do avô tocando violão. "É que é bonito", disse a criança. E você chora com o que é bonito? "É que não cabe nos olhos".
Humilde preâmbulo para citar o humilde blog. Não cabe. Algumas emoções não cabem num blog. Transbordam pela caixa de entrada, invadem outras telas, se derramam pelo teclado.
Peguei o metrô em estado catatônico. O metrô quebrou na estação onde descia no meu primeiro emprego. Com o meu primeiro salário, na época, eu comprei o agasalho verde e duradouro que estava vestindo. Umas estações mais tarde, o filho da minha primeira patroa entrou no trem.
Claro que não achei um simples acaso. Meu primeiro emprego formou parte de meu caráter. Caráter que sempre está em formação. Seria divertido que entre o teatro e minha casa aparecessem outros elementos desses. Não apareceram.
Eu poderia dizer aqui em detalhes o que senti com cada um que fez cada cena. Mas não caberia. Caberiam nas letras, mas as letras são para o sentimento como os olhos são para a lágrima. Transborda, sucumbe, se rende.
Atrás dos números eu vi pessoas. Nos seus jeitos, formando um pouco mais dos seus caráteres. Cada um com seu ritual e sua reação à ansiedade. Ninguém foge de ser o que é nessas horas intensas da vida.
Pra não falar que não convidei ninguém, eu convidei minha mãe. Mas eu sabia que ela não teria como ir. O vitrine tinha para mim um aspecto particular de reencontro com o público de fato. Nada muito diferente de nenhum de nós, seja encontro ou reencontro. Só que eu acho que preferia um público sem identidade, sem nomes, sem endereço conhecido. Igualzinho um membro do Noturno deve ser no palco. Pelo menos dessa vez.
Uma parte da engrenagem que me move é uma mágoa, uma derrota. Passei 2009 indo à academia em busca de condicionamento físico. Em 2010, minha busca é pelo condicionamento artístico. Fazem 5 anos que procuro condicionamento espiritual. Algo que junte, solde dois pedaços de mim e transforme numa história só. Noturno me parece ser isso para mim.
E para cada um de nós, ele tem sua representatividade, sua explicação, que não há de caber em palavras.
Eu estava lá, naquele meu primeiro emprego, trabalhando, quando Ana Paula morreu. Eu usei o nome dela esse tempo todo para justificar a minha própria escolha por não fazer teatro. Cinco anos. Onde eu estarei daqui cinco anos. Quais serão meus próximos medos.
Este está superado. Não sem lágrimas e hesitações. Mas sem nenhum minuto de ausência. E Ana Paula, a quem o palco era tão necessário, a quem a amizade muito me custava, ocupava uma daquelas cadeiras vazias. Ou lotadas. Cada um de nós tínhamos convidados só nossos.
E eu preciso agradecer ao que me forma o caráter, pedaço por pedaço. De cabo a rabo das experiências, de A a Z. Enumerar as vezes que me arrepiei e/ou perdi o chão na noite que acabou agora seria individualizar uma sensação conjunta de paz, e perder o "junto filosofal" que se formou aqui dentro. E simplesmente não caberia no blog.
Baixei a guarda para outras chicotadas psicológicas que vieram em minha direção. O primeiro exercício com canção do Noturno; O Menestrel de Shakespeare; Metade, de Oswaldo Montenegro; entregar o palco para um parceiro, dar a deixa; alguns gestos e olhares "familiares" perdidos pela noite. Tudo isso atingiu meus olhos. Não coube neles. Como não cabe no peito de ninguém tanta coisa e mais coisa que nos forma, desde lá de trás.
Noturno é uma destas coisas. Lembro de uma criança arrepiada. E não entendia muito bem o porque. Só sabia que era bonito. De um lado a mãe, do outro a tia, as duas emocionadas. Buscou razão para estar alí. E assistiu Noturno pela primeira vez na vida.
Não sei se o Noturno é um dos culpados por eu crescer insone. Se minha parte boêmia tem influência dele. Se suas músicas da peça que tanto tocaram em casa sedimentaram meu gosto musical. Se o meu lado sentimental tem contribuição notúrnica. Não sei. Seja como for, eu tive o Noturno quando criança, e o tenho agora adulto. E me considero um cara de muita, muita sorte.
segunda-feira, 31 de maio de 2010
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