Verinha me emocionou.
Eu queria começar o texto já falando disso, ou do porque disso.
Tive uma única experiência com a dopagem premeditada, com a violência deliberada através de drogas quaisquer. Que familiares não descubram este blog.
Estava hospedado num famoso hotel, sozinho, à trabalho. E não saí daquele gigantesco quarto igual entrei. Saí derrotado e não tenho orgulho disso. Acabara de ser cruel comigo mesmo, encerrado uma fase importante da vida, e desci às ruas do centro da cidade, desesperado, querendo qualquer idiotice que me violentasse, me tirasse grana do bolso e causasse preocupação de alguém.
A decadência é mais decadente quando é pobre e causa dó.
Achei uma idiotice qualquer e usei. E me senti frágil, chorão, de atos efêmeros e bobos como os de uma criança. E só me confundi, misturava certeza e arrependimento, critica e elogio, amor e ódio.
A verinha me emocionou com aquela espera por um namorado que não viria. Dopada mas contida, com raiva mas exaltando o desleal parceiro. Contradizendo os gestos e as palavras a todo segundo. Conflito. O conflito que te põe contra ti mesmo, se agredindo, se absolvendo, se justificando pra ninguém.
Quem nunca foi decadente uma vez na vida, simplesmente não nasceu.
E aí eu busco alguma explicação metafórica para absorver. "Exercício deprê", disse Deto Salaminho. Não sei, talvez não. Depressivo é o vazio. Deprê mesmo é negligenciar a própria derrota, pois ela educa e você tem que aceita-la para aprender.
Quando me perguntam sobre que cena quero fazer no Noturno, digo que prefiro sempre algo mais dramático do que engraçado. Um pouco porque flerto com esse raciocínio, de que sou mais humano quando estou mais perto do abismo.
O exercício não foi deprê. Nos adicionou elementos a mais, apenas isso. Um elemento que talvez nos faltasse, de interpretar, mesmo que de maneira descontraída, um sentimento de perturbação, indesejável, que nos fez buscar algum signo desagradável que conhecemos.
A Verinha me emocionou porque representou a maturidade que todos nós devemos ter - e eu acho que temos ou estamos a caminho de ter - para cuidar de cenas densas, seja foto, seja dança, seja o que foi.
Definitivamente, quanto mais humano e engasgado é um personagem, mais ele me conquista.
* * *
Noturno vai chegando perto da metade. Perto da segunda metade. Perto de ser marcado, decorado, acertado, definido, alinhado. Como uma vida humana, em que infância e juventude, primeira metade, tudo pode, mas a maturidade é certinha e precavida.
Atos efêmeros e bobos como os de uma criança a gente faz quando está crescendo. Noturno, com o coração, a gente só faz quando já cresceu.
Eu já não sou mais aquele que entrou.
Porque não são só as más experiências que nos transformam.
Com vocês, quero algumas más experiências encenadas.
E todas as boas experiências possíveis, estas não encenadas.
quarta-feira, 12 de maio de 2010
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