Eu pude ver todos os olhos fazendo a mesma conta que eu. Todos chegaram ao mesmo número final ao mesmo tempo que eu. Éramos 8. 7 mulheres. E foi assim que não se podia mais ir contra: faríamos as cenas de Branca de Neve e os 7 Anões.
Claro que a masculinidade desses 7 anões é menos impactante do que a feminilidade de uma Branca de Neve. Acho que suportei bem a pressão. No tempo de colegial, após sair de quadra contundido 3 vezes seguidas, o ginásio inteiro entoou o côro "Princesa, princesa" para mim. 5 minutos depois eu quebrei o nariz numa dividida, e queria saber que tipo de princesa passa por isso.
De toda forma, desde aquele dia que não precisava de uma concentração diferente da linear. Piadas à parte, o exercício em questão foi o primeiro objetivamente radical no escuro.
Ele, assim como o que o antecedeu, consistia em sair da coxia e voltar pra ela, no escuro completo. Aquilo que o público do Noturno, quando assiste, não consegue entender como é possível ser feito.
Hoje aquele sonho louco de espectador começou a ser desmistificado. Andar no escuro, posição de fera, ouvido aguçado, todo o tato do mundo na planta do pé, mãos em alerta de proteção, instinto, faro também, noite. De todas estas sensações animalescas e demasiado humanas surgir a Branca de Neve é que é o engraçado.
Outro ponto me preocupou. O amor da minha vida é meu time de futebol de bairro. Que joga bola e ajuda o bairro, ajuda a comunidade, mais que qualquer político. Não posso romper com esse time, esse ideal (sabiam que fui premiado líder comunitário em 2006? Grande merda né?). Mas também não posso romper meu joelho.
E meu joelho falseia. Às vezes apenas dói, noutras vezes falseia. A academia que fazia pra fortalecê-lo foi suspensa. Motivo: dores. Hoje precisei me equilibrar nele. Colocar peso nele. E senti que ele tremeu um pouco. Fiquei tão afetado com isso que o coitado do meu parceiro, que esperava de mim um espelho, só viu equívocos.
Não é que seja insuportável, ou que esteja a ponto de arrebentar. É que não está perfeito. E o resto, em cima do palco, está perfeito. Cabeça, coração, pulmão, braços, tudo está perfeito e o joelho tem que vir nessa. "Joelho, o corpo é seu grupo, você precisa estar junto, junto, junto dele", queria dizer.
Não posso cogitar perder uma dança, um um dia que seja, por conta de dores no joelho. Por pensar nisso, me antecipo a um problema que não existe ainda. Isso me desconcentra.
No mais, o grupo vai conquistando sua cara, seu estilo, vai ganhando indpendência, caráter, vai sabendo o que tem que fazer. Vai arriscando. Cheguei 20 minutos antes e a maioria do pessoal estava em cima do palco. Isso diz muito. Eu vi coisas realmente boas nos exercícios do pessoal ao meu redor.
Em alguns exercícios, tocaram músicas especiais para mim. Uma do Pink Floyd e outra do Oswaldo Montenegro, notadamente emocionantes. Mas teve uma boa serie de canções dos Beatles. Como pretendo deixar uma canção de cada treino, aí embaixo vai uma delas, uma destas.
Saio de mais um treino com uma sensação estranha. Não me perguntem o que é, mas é estranho ir conhecendo vocês. Quem mora aqui, quem mora lá, quem bebe, quem fuma, quem faz academia, quem tem filhos, quem namora, quem canta, quem isso, quem aquilo. Informações. Humanizando e aproximando uma galera que eu passava um bom tempo inventando sozinho na cabeça.
Atentos, criaturas da noite. Hoje foi o treino 4. Quatro para nos conhecermos.
terça-feira, 2 de março de 2010
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